Há um empenho muito grande em procurar respostas para a
educação vide a campanha do grupo RBS intitulada "A Educação Precisa de Respostas" (foto). Não seria mais eficaz produzir
questionamentos e problematizações sobre a escola? Abri-la, vasculhar seus
meandros e segredos? Dificilmente questionamos a instituição, suas regras, suas
normas e seus valores: questões intocáveis. Ouvimos repetidamente: “ todos
dentro da escola, em tempo integral, desde a primeira infância”.Dificilmente duvidamos do seu ordenamento, do seu processo.
Só olhamos os resultados. Procuramos os culpados pelo insucesso: os pais, os
alunos, os professores ou os governos; jamais a lógica e a rotina estrutural da
instituição escolar.
Normalmente confundimos ensino com
educação. São ordenamentos diferentes, quase excludentes. Ensino diz respeito à
instrução, informação de saberes e fazeres de algo ou alguém que já fez,
concluiu, acumulou e precisa ser transmitido e assimilado por alguém que não
sabe, não concluiu e nem acumulou. Educação diz respeito à processualidade,
dialogicidade, construção humana, desenvolvimento de potências, de afetos,
autonomização, comunicação e convivência democrática.
Tem se evidenciado difícil a
possibilidade de ensinar e educar num mesmo ato, ao mesmo tempo. Ensinar é uma
ação hierárquica, monológica, desigual, fechada, com resultados e respostas
únicas. Educar é ação horizontal, dialógica, inconclusa, emancipatória, aberta
ao devir dos sujeitos.
A escola sempre foi, até então,
promotora de ensino e instrução. Toda sua estrutura de tempo, espaços de poder,
relações interpessoais, lembram as estruturas dos quartéis e das fábricas, cujas
características podem ser descritas como a de que todos devem assimilar os
mesmos conteúdos, ao mesmo tempo, num mesmo espaço e num só ritmo; incentivo à
competição, individualismo, inatividade, com restrição às manifestações (falas),
mera coincidência com a “ordem unida”, desconsiderando as diferenças, as
necessidades e peculiaridades dos sujeitos concretos. Mensalmente aplicam-se provas, testes,
trabalhos para medir e testar a qualidade da “matéria prima” que precisa ser
beneficiada. Muros cada vez mais altos, para ninguém fugir, câmaras de vídeos
pelos corredores, salas e banheiros, auxiliares de disciplina, vigilantes nos
pátios, práticas de confinamento. Enfim, uma máquina engendrada na tentativa,
cada vez mais difícil, de domesticação de corpos, mentes e desejos de crianças
e jovens.
Certamente, na escola de resultados e
respostas, na proposta dos governos e
parte da sociedade, é conveniente não questionar essa “caixa preta” pois ela está moldada
para formar cidadãos obedientes, submetidos a um padrão de consumo e de
comportamento e pouco críticos e
criativos, bem ao gosto do sistema econômico e social que vivemos.
Os jovens e as crianças se recusam a
serem ensinados desta forma, o que pode ser considerado uma saudável
resistência. Pouca aprendizagem, repetência, evasão e indisciplina são alguns
sintomas deste mal estar epidêmico nos alunos e professores de nossas escolas.
Educação não faz crescer o PIB,
educação faz crescer o FIB (Felicidade Interna Bruta). O Ensino fazia crescer o
PIB, já não faz mais, pois a realidade mostra que o PIB cresceu. Apesar da
crise na educação escolar, somos o 6º no ranking mundial, mas o 88º no ensino.
Crescimento econômico não depende mais, necessariamente, do ensino.
A produtividade do
trabalho depende, cada vez mais, das pessoas entrarem no circuito de
comunicação com redes e grupos disseminados em toda a sociedade. É o “Intelecto
Geral” (Marx) socializado em toda a sociedade e plugado pela enorme capacidade
de aprendizagem que todas as pessoas têm. A sociedade é pedagógica, ensina,
educa, porque somos eternos aprendizes, apesar da escola.
O ensino fazia crescer o PIB quando
o ritmo da escola e do seu ensino era adequado ao modo de produção da sociedade
industrial. Atualmente há um descompasso entre a lentidão da estrutura de
ensino e a velocidade do conhecimento na sociedade da comunicação e do
conhecimento, chamada também de sociedade pós-industrial. Defasagem também
entre os valores da escola: competição, sucesso pessoal, individualismo,
repetição de conhecimento acumulado, entre outros e os valores e
habilidades do trabalho e da produção no
mundo contemporâneo, quais sejam: cooperação, comunicação, trabalho em rede,
produção de sentido e de afetos e capacidades inventivas.
Sendo a escola um espaço de encontro de pessoas, ela pode sim
se constituir num espaço de potencialização dos sujeitos, desde que suas portas
se abram para o mundo, suas rotinas e práticas se dinamizem e funcionem de
forma horizontal, circular, na conversação, no diálogo, nos desafios
problematizadores, que instigam a pesquisa, a aprendizagem inventiva, a
comunicação, os afetos, a busca de reinvenção de si e dos modos de produzir e
de conviver com a natureza.








