segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Educação precisa de respostas?



Há um empenho muito grande em procurar respostas para a educação vide a campanha do grupo RBS intitulada "A Educação Precisa de Respostas" (foto). Não seria mais eficaz  produzir questionamentos e problematizações sobre a escola? Abri-la, vasculhar seus meandros e segredos? Dificilmente questionamos a instituição, suas regras, suas normas e seus valores: questões intocáveis. Ouvimos repetidamente: “ todos dentro da escola, em tempo integral, desde a primeira infância”.Dificilmente duvidamos do seu ordenamento, do seu processo. Só olhamos os resultados. Procuramos os culpados pelo insucesso: os pais, os alunos, os professores ou os governos; jamais a lógica e a rotina estrutural da instituição escolar.



            Normalmente confundimos ensino com educação. São ordenamentos diferentes, quase excludentes. Ensino diz respeito à instrução, informação de saberes e fazeres de algo ou alguém que já fez, concluiu, acumulou e precisa ser transmitido e assimilado por alguém que não sabe, não concluiu e nem acumulou.      Educação diz respeito à processualidade, dialogicidade, construção humana, desenvolvimento de potências, de afetos, autonomização, comunicação e convivência democrática. 

            Tem se evidenciado difícil a possibilidade de ensinar e educar num mesmo ato, ao mesmo tempo. Ensinar é uma ação hierárquica, monológica, desigual, fechada, com resultados e respostas únicas. Educar é ação horizontal, dialógica, inconclusa, emancipatória, aberta ao devir dos sujeitos.

            A escola sempre foi, até então, promotora de ensino e instrução. Toda sua estrutura de tempo, espaços de poder, relações interpessoais, lembram as estruturas dos quartéis e das fábricas, cujas características podem ser descritas como a de que todos devem assimilar os mesmos conteúdos, ao mesmo tempo, num mesmo espaço e num só ritmo; incentivo à competição, individualismo, inatividade, com restrição às manifestações (falas), mera coincidência com a “ordem unida”, desconsiderando as diferenças, as necessidades e peculiaridades dos sujeitos concretos.  Mensalmente aplicam-se provas, testes, trabalhos para medir e testar a qualidade da “matéria prima” que precisa ser beneficiada. Muros cada vez mais altos, para ninguém fugir, câmaras de vídeos pelos corredores, salas e banheiros, auxiliares de disciplina, vigilantes nos pátios, práticas de confinamento. Enfim, uma máquina engendrada na tentativa, cada vez mais difícil, de domesticação de corpos, mentes e desejos de crianças e jovens.  



            Certamente, na escola de resultados e  respostas, na proposta dos governos e parte da sociedade, é conveniente não questionar essa “caixa preta” pois ela está moldada para formar cidadãos obedientes, submetidos a um padrão de consumo e de comportamento e  pouco críticos e criativos, bem ao gosto do sistema econômico e social que vivemos.
             Os jovens e as crianças se recusam a serem ensinados desta forma, o que pode ser considerado uma saudável resistência. Pouca aprendizagem, repetência, evasão e indisciplina são alguns sintomas deste mal estar epidêmico nos alunos e professores de nossas escolas.

            Educação não faz crescer o PIB, educação faz crescer o FIB (Felicidade Interna Bruta). O Ensino fazia crescer o PIB, já não faz mais, pois a realidade mostra que o PIB cresceu. Apesar da crise na educação escolar, somos o 6º no ranking mundial, mas o 88º no ensino. Crescimento econômico não depende mais, necessariamente, do ensino.

 A produtividade do trabalho depende, cada vez mais, das pessoas entrarem no circuito de comunicação com redes e grupos disseminados em toda a sociedade. É o “Intelecto Geral” (Marx) socializado em toda a sociedade e plugado pela enorme capacidade de aprendizagem que todas as pessoas têm. A sociedade é pedagógica, ensina, educa, porque somos eternos aprendizes, apesar da escola.
            O ensino fazia crescer o PIB quando o ritmo da escola e do seu ensino era adequado ao modo de produção da sociedade industrial. Atualmente há um descompasso entre a lentidão da estrutura de ensino e a velocidade do conhecimento na sociedade da comunicação e do conhecimento, chamada também de sociedade pós-industrial. Defasagem também entre os valores da escola: competição, sucesso pessoal, individualismo, repetição de conhecimento acumulado, entre outros e os valores e habilidades  do trabalho e da produção no mundo contemporâneo, quais sejam: cooperação, comunicação, trabalho em rede, produção de sentido e de afetos e capacidades inventivas.


Sendo a escola um espaço de encontro de pessoas, ela pode sim se constituir num espaço de potencialização dos sujeitos, desde que suas portas se abram para o mundo, suas rotinas e práticas se dinamizem e funcionem de forma horizontal, circular, na conversação, no diálogo, nos desafios problematizadores, que instigam a pesquisa, a aprendizagem inventiva, a comunicação, os afetos, a busca de reinvenção de si e dos modos de produzir e de conviver com a natureza.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ANTONIO: Meu primeiro neto

Dia 17 de setembro nasceu, de parto normal, o Antonio Dalmaso Palma, filho da nossa filha Lúcia e de Leonardo Retamoso Palma. 
O nome é muito simples, ter filho e ser avó é algo muuuuito comum. Acontece com todo mundo, mas embora tudo faça parte do cotidiano da vida, eu preciso falar de minha alegria, gosto de falar dela, de dizer a todo mundo o quanto estou e estamos todos muito felizes, em nossa familia. Abençoada filha que nos presenteou com esse neto. É maravilhoso ver a vida se renovar e ter entre nós um novo rostinho.

Já não é mais tão comum o parto vaginal. A Lúcia insistiu, foi muito corajosa e apesar das dúvidas do seu obstetra, a Lúcia o pariu, em meio a dores, é claro, receios e coragem. Ficou em casa até as dores apertarem e acontecerem de 4 em 4 minutos.Só então  eu a levei ao hospital  as 21 horas e  as 22:45 o Antonio nasceu, pesando 3 Kg. e 564g. e medindo 53 cm. Um bebezão! Eu, a Alice e o Leonardo ficamos com a Lúcia durante todo o trabalho de parto, só foi para a sala de obstetrícia, quando o Antoniio começava a apontar. Foi muito emocionante! A Lúcia foi maravilhosa!


Senti uma emoção tão grande, comparável às que senti quando do nascimento dos meus filhos.
É difícil poder escrever sobre o que senti e continuo sentindo ao ver a carinha do meu neto, ao ver a Lúcia e o Leonardo lidarem com o filho, ao ver a Lúcia amamentar. 
E como ela insistiu para amamentar! Demorou quase 10 dias para que o leite viessa o suficiente. Me doía ver o guri insistindo tanto e engolindo aos pouquinhos. E ele fez tudo certinho: pegou bem o peito, puxava (apojava como um terneirinho novo). Ao contrário do que me parece mais comum, o leite vir no terceiro dia, em volume grande que chega a empedrar no peito, com a Lúcia ele foi aumentando aos poucos. 

O Antonio perdeu peso nos primeiros dias, o que é normal, mas depois ia adquirindo peso, aos poucos. Hoje a Lúcia tem bastante leite, meu netinho está satisfeito, está engordando muito bem e é muito bonzinho. Muito saudável e calminho!

Ia dizendo que é difícil escrever sobre emoções. Eu não sei fazer isso. Só sei que sinto uma alegria enorme, misturada com uma certa preocupação de mãe (avó) que me faz telefonar todos os dias para saber se dormiu, se mamou bem, etc.
O Irineu e eu nos disponibilizamos a ajudar, mas com o prudência necessária para  não sermos invasivos.
A gente inventa umas desculpas para estar perto: fazer almoço pra todos, passar as roupinhas, dar carona ao pediatra, ajudar no banho, entre outras. No entanto queremos que a Lúcia sinta que estamos solidários para ajudar, respeitando a caminhada que eles farão para criar esse filho, com amor e cuidados.


Cada vez que olho para o Antonio eu me lembro daquela canção que eu cantava para os meus filhos: "  meu coração, não sei porque, bate feliz, quando te vê!..."
Sinto alegria em ver a alegria dos outros meus filhos com o sobrinho. Basta olhar o facebook para constatar e me comoveram muito as manifestações dos amigos e amigas que vibraram com todos nós.

Junto com a alegria vem também as preocupações: como a Lúcia fará para trabalhar? Quem vai cuidar do Antonio? Que idade é conveniente colocar na escola? Como educar, de forma que ele não se transforme num reizinho? A Lúcia fala que o exemplo de vida é o mais importante. Também acho, mas sei que não é tão simples.
É muito bom ser avó! É bom também ver a alegria do vovô Irineu! O Antonio já ocupou, definitivamente, meu coração.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

História de vida, sensibilidade social e cotas


Vou continuar apoiando iniciativas que tenham como objetivo reduzir desigualdades,
 construir mais equidade e justiça social e fico feliz que meus filhos
 continuem a se posicionar dessa forma e espero que melhorar de vida não
 os faça mudarem de lado e esquecerem suas raízes
 e sua responsabilidade humana e social.


História - Na década de 70, o Irineu e eu pegamos nossa filhinha de alguns meses e junto com uns amigos fomos morar na periferia de Porto Alegre (Vila Jardim). Movidos pelo compromisso em construir uma sociedade melhor, fomos juntos, de forma comunitária, tentar viver outro modo de vida.  Primeiro, simplesmente, morando no meio dos empobrecidos e depois a gente foi descobrindo, com eles, as formas de luta que poderíamos e precisaríamos implementar para superar as inúmeras dificuldades para viver com dignidade.
Em plena ditadura militar e com medo constante da repressão (que enfrentamos diversas vezes) fomos vivendo o dia a dia de uma vida de luta, mas também de aprendizado e de alegria, que se aprende no convívio com a “riqueza dos pobres”, de sua criatividade, sua capacidade de improvisar para sobreviver.
Éramos brancos, no meio de uma comunidade majoritariamente negra. Ser branco já é um passaporte de acesso na sociedade de história, mentalidade e práticas escravagistas. Mas nós estávamos lá, com a comunidade. A vida e o tempo foram mostrando as urgências. Fome, violência, lixo, esgoto a céu aberto, doenças... Tudo foi se evidenciando e nos atingindo também, de algum modo.



Personagens - Lembro-me da Jurema, moradora de um beco, que em duas gestações teve quatro filhos. O marido, funcionário de um frigorífico, trabalhava na câmara fria, e, doente dos pulmões, foi demitido. Desesperado, jogou-se de uma ponte e morreu. A Jurema, saia de madrugada, colocava os filhos nas portas das casas, sem avisar  e saia a fazer faxina. Voltava à noite, recolhia os filhos, agradecia e deixava um litro de leite para quem havia cuidado de seus filhos. A situação ficou tensa. Percebemos que eram muitas as Juremas da vida. Reunimos um grupo de pessoas, na maioria mulheres e criamos a “equipe do socorro”, estruturando no salão da igrejinha uma creche, com trabalho voluntário. Com meus conhecimentos de contadora, conseguimos captar recursos de empresas, legalizar a creche, que se firmou e, pelo que sei, ainda existe, hoje assumida pela Prefeitura. A Jurema pôde trabalhar sossegada, seus filhos eram alimentados e cuidados.
Era comum, mulheres baterem a nossa porta para pedir açúcar emprestado. Motivo? Adoçar a água para seus bebês, na falta do leite.
Lá presenciamos muito sofrimento, muita luta. Vimos as águas arrastarem barracos construídos sobre o valão do esgoto. Ajudamos enterrar as vítimas. Lá organizamos mobilizações, corremos da repressão, alfabetizamos adultos, reivindicamos os médicos de famílias, que se hospedavam em nossa casa. Organizamos assistência jurídica, entre outras coisas. Meu marido presidindo a associação de moradores da vila. Nesse período da ditadura, proliferavam as associações de moradores, forma de participação então permitida pela ditadura. Conquistada, evidentemente.
Não havia PT, não havia democracia.

Filhos - E no meio de toda essa luta foram nascendo os filhos. Dez anos depois nos mudamos para o interior de Restinga Seca, no meio dos pequenos agricultores. Pegamos o período da constituição de 1988  e participamos das mobilizações pelas conquistas sociais da “Constituição Cidadã”. Lutamos pela aposentadoria da mulher da roça, pelo SUS... Na nossa comunidade, as lutas do cotidiano para viver com dignidade: transporte escolar, por exemplo, que era caótico.
Ali tivemos mais uma filha, a quarta. Não iam à escola levados e trazidos de carro particular, não tinham acesso às aulas de reforço, de idiomas, à biblioteca no turno inverso, assim como também não tinham todos os outros filhos de moradores do interior. Era preciso estar cedo na estrada esperando aquele ônibus, desconfortável, quase sempre atrasado, naquelas estradas barrentas, algumas vezes caindo nos barrancos. Nossos filhos junto e nós também. Vimos muitos desistirem, rodarem sistematicamente, terem de abandonar a escola para ajudar no plantio do fumo.
Criar os filhos dessa forma educa e sensibiliza para a compreensão social. Só isso já bastaria para que nos posicionemos a favor de iniciativas de inclusão social e de redução das desigualdades econômicas e sociais, porque não basta ser igual perante a lei, a igualdade que interessa é a das condições de vida.



Negros - Mas sabemos, e meus filhos também sabem, que ao nascermos brancos, descendentes de imigrantes europeus já nascemos com um elemento a mais no nosso “currículo” de vida que nos facilita a acessibilidade. Entendemos que herdamos também as responsabilidades pela extorsão e pelo genocídio que nossos ancestrais europeus promoveram ao invadir as terras que hoje são o Brasil, tomando-as  dos índios, matando-os, escravizando (índios e negros). Quem não estudou sobre Domingos Jorge Velho, o bandeirante que “desbravava” as matas caçando índios, trazendo amarrados homens, que iam para o trabalho escravo, mulheres que eram estupradas e depois mortas, junto com seus filhos (alguns bebês), às vezes servindo de alvo para o treinamento de tiro?
Milhares morreram (tribos inteiras) de doenças transmitidas pelos brancos europeus.
E os negros? Porque será que os analfabetos, pobres e favelados são majoritariamente negros, até hoje?
Levam-se séculos para alterar realidades sociais.
Existem incontáveis documentos, legislações arquivadas, que provam a barreira social histórica contra os negros. Eram proibidos de votar, não podiam legalmente ser proprietários de terras, mesmo que pudessem comprá-las não as podiam registrar em cartório, isso até o início do século XX. Os filhos dos negros eram proibidos de irem às escolas, mesmo as poucas escolas públicas, que foram fundadas para os brancos. Os mortos negros não podiam ser enterrados nos cemitérios dos brancos e muito menos frequentar os clubes dos brancos e isso em pleno século XX. Se acontecia algum delito a polícia suspeitava e prendia, para averiguação, sempre os negros em primeiro lugar. Nesse caso, os negros sempre ocuparam os primeiros lugares. Ainda é assim.


Cotas - Creio que a classe média tem, sim, muitos motivos para lutar: pela qualidade da educação, que requer mudanças estruturais, com muito maior investimento, lutas contra a má qualidade dos alimentos, os pesticidas que geram tantas doenças, luta contra a abusiva tabela de Imposto de Renda em relação aos ganhos decorrentes do trabalho, que deveria ter as alíquotas reduzidas e aumentadas nos ganhos de capital e especulativos: dos bancos, das especulações imobiliárias e financeiras, dos latifundiários que não pagam IR. Lutas ambientais, etc.
A Lei de cotas pode até ter equívocos, ser eleitoreira, como alguns afirmam, mas tem um profundo caráter social, de solidariedade social. Durante sua aplicação, creio, será necessário ir aparando arestas, aperfeiçoando-a, e quem sabe, em algum tempo, ser possível dizer que não é mais necessária.
Tenho lido manifestações ressentidas contra essa lei, com argumentações precárias, o que me entristece.
Não gosto de ouvir que o Brasil não é um país sério quando se trata de leis de caráter social. Pode não ser sério por outras coisas como o modo predatório de produção, de desmatamento promovido por madeireiros inescrupulosos ou por criadores de gado, pela poluição e mau uso das águas, pelo modelo econômico neo-desenvolvimentista que isenta de IPI as indústrias automobilísticas e injeta dinheiro ao BNDS para setores empresariais grandes, que continuam desempregando trabalhadores. Pelo modo com que cuidamos dos alimentos, da natureza, do trânsito.
Mas nunca porque arrisca alguns programas sociais.

Vou continuar apoiando iniciativas que tenham como objetivo reduzir desigualdades, construir mais equidade e justiça social e fico feliz que meus filhos continuem a se posicionar dessa forma e espero que melhorar de vida não os faça mudarem de lado e esquecerem suas raízes e sua responsabilidade humana e social.

sábado, 12 de maio de 2012

MATRIZ, MATRIARCA OU MÃE?

Amanhã é o dia das mães, instituído, certamente, com a intenção de ser mais uma data que o mercado aproveita para vender. Durante o processo de propaganda dos produtos, o mercado, na tentativa de agradar, vai publicizando um referencial sobre as mães. Nesses dias a maternidade é abordada de forma fetichizada e os paradigmas são, sem dúvida, os que defendem o amor incondicional, eterno, perfeito. As mães apresentadas são naturalizadas, santificadas, belas e a maioria jovem.
Fico refletindo e comparando com as realidades que conheço e constato que na vida real não é bem assim.

A maternidade  é permeada de todas as características conflituosas,que têm  os relacionamentos que a humanidade estabelece, principalmente os de cunho familiar: instituição repleta de relações altamente conflituosas. A familia, também  colocada sob uma auréola de importância fundamental e sob os belos discursos, toda a sua crise é escamoteada.
Sobre isso quero refletir:

Tem mães matrizes: geram, dão à luz, algumas até amamentam, como outras fêmeas do reino dos mamíferos e depois vão entregando suas crias para os "outros" (instituições). Terceirizam os cuidados, a educação e até o afeto é patrocinado. Não falo de abandono, falo de familias bem constituidas, mas que os cuidados, dentro da familia, com os filhos não são, via de regra, desempenhados pelas mães, mesmo quando elas poderiam fazer isso.

Tem também as matriarcas. Estas são mais que matrizes. Entendem que a maternidade lhes dá o direito de mando, de considerações especiais, de atribuições que perduram durante todo o tempo em que vivem, em relação a seus filhos; Entre as "sagradas" atribuições de mãe (matriarca) estão a de opinar sobre tudo (e impor as opiniões), querer saber tudo sobre a vida dos filhos e principalmente sobre a vida das filhas, interferir sempre, invadir a privacidade, aconselhar (ou determinar), receber "ajuda"(obrigação dos filhos e direito da mãe), ser paparicada, fazer chantagem emocional, impor sua presença, às vezes inconveniente, monitorar tudo, em nome do suposto amor materno ilimitado, "gratuito" e " sagrado". Há quem atribua à mãe poderes especiais, de premunição, de direito e capacidade divina de abençoar ou de amaldiçoar.
Exageros à parte, já vi tudo isso nas minhas andanças de militante.

Por favor, meus filhos, não me deixem ser matriarca!

E, finalmente, tem as mães (e os pais) que escolhem e decidem fazerem-se, constituirem-se mães. Assumem-se como seres mamíferos, aceitam os instintos (que são bons) e vão muito além. Optam por acolher, cuidar e assumem essa relação de cuidado e acolhimento em relação aos filhos dos outros também e no diálogo, considerando, como diz Maturana, a "legitimidade" do ser de cada um e cada uma, momento a momento da vida, com as alegrias, as contrariedades, as dificuldades, os conflitos, as diferenças, num processo constituinte de compartilhamento, de cooperação, de ir construindo as relações, com todos os envolvidos, ao ir vivendo, na verdade das emoções e das ações do dia a dia.

Nesse processo verdadeiro, ninguém precisa ser perfeito, a gente pode e deve mostrar as emoções: carinho, raiva, dor, alegria. A gente pode errar, pedir perdão, voltar atrás, no diálogo verdadeiro. Até porque não adianta querer enganar os filhos, eles nos conhecem e nos ajudam a crescer.

E eles crescem, saem, amadurecem, sofrem, erram, aprendem, às vezes somem e voltam.
Nós, mães e pais, vamos abrindo novos caminhos, autônomos em relação a eles, já sem eles por perto, mas sempre com espaço na vida (e na casa) para recebê-los, ouvi-los, ajudá-los, pedir ajuda, enfim, ir compartilhando.
Não existem obrigações mútuas e não é por obrigação que eles voltam.
Eu queria que fosse por se sentirem atraídos, seduzidos por nosso amor, nossa sabedoria, nossa comida boa, nossa alegria.

Eles sabem: na casa e no nosso coração, sempre haverá lugar para acolhe-los e junto com eles, acolher tudo e todos que trouxerem com suas vidas.
Falo no plutal, porque sou tão mãe quanto pai e o Irineu é tão pai quanto mãe, nos cuidados e no acolhimento. Por isso devia ter o dia dos cuidadores e só. Porque as diferenças entre ser pai e ser mãe, desejamos, sejam cada vez mais confusas.
Por meu lado afirmo: Ser mãe é opção e construção amorosa.



quarta-feira, 2 de maio de 2012

JÁ FUI PARTEIRA

Parir era um acontecimento natural, embora cheio de rituais -  e de práticas estranhas à nossa civilização moderna -  vividos pelas diferentes civilizações.
Foi na modernidade que o parto passou a ser função dos médicos e realizados em hospitais, como se fossem casos de doença.
Sabe-se que havia mortalidade materna, mas ainda há. O fato é que as mulheres tinham que parir por meio natural, com a ajuda das parteiras. A pergunta que a gente faz é: por que, atualmente, é tão raro partos naturais? Por que as parturientes têm tantas dificuldades de alcançarem a dilatação que possibilite o parto natural? O que mudou?

Há quem diga que a vida das mulheres é mais sedentária. Talvez!

Tudo isso me fez lembrar que na minha história de militante já fiz um parto e ele me pareceu simples, embora tenha acontecido num ambiente muito precário. Vou contar. É verídico e certamente não vou conseguir expressar toda dimensão do susto, medo e emoção que vivi naquele dia.
Eu já havia passado dos 40 anos e já tinha meus 4 filhos, todos de cezariana, infelizmente, pois eu queria muito que tivessem nascido de parto natural ou parto vaginal, como diz meu filho Pedro.

Era vereadora em Restinga Seca e havia marcado uma reunião na comunidade de São Miguel, hoje uma reconhecida comunidade quilombola.
Estávamos (eu e um grupo de moradores) sentados sob a sombra dos cinamomos, numa grande roda. Debatíamos a luta da comunidade pela conquista de água potável canalizada.
No auge da discussão de alternativas, trouxeram-me uma senhora com ataque epilético, para que eu a levasse ao hospital. Interrompi a reunião, colocamos a senhora no banco traseiro do meu velho opala branco. Quando eu tentava dar partida, no meio do alvoroço, carro rodeado de gente, de todas as idades, nova gritaria:

-"Vereadora, dona Tereza, espera!"
- "A Jussara tá com as dor, leva ela junto, o nenê vai nascer!"
Olhei para o banco do carro, a mulher se debatendo. Saio correndo até a casinha da Jussara (a parturiente). Uma procissão de gente vai atrás de mim. A jussara fala:
- "não vai dar tempo dona, o nenê está nascendo, me ajuda!"
Volto para o carro, uns me chamam de um lado, outros de outro...uma confusão!
Alguém fala: "eu fico aqui no carro. Ela vai se debater um pouco mais mas depois passa, é sempre assim".
 D.Maria, mãe da Jussara, já me puxava para dentro do rancho e a Jussara gritava:" a senhora, que é estudada, segura meu bebê"!
Na porta, nas janelas, o povo se empilhava para ver o que acontecia dentro do rancho.Pedi que se afastassem, fechei as janelas e a porta.
Pedi ajuda a duas mulheres e à mãe de Jussara.

Tem água? não tinha!
Acharam um vidro com alccol.
Tem tesoura? não tinha. Acharam uma faca.
Algodão? Gaze? Não tinha.
Encontramos uma fralda numa mala onde estavam as roupas do nenê.
As outras mulheres sairam em busca de água.
Achamos, sob um velho guarda-roupa, um plástico que colocamos na cama, sobre uma toalha, para ajudar a proteger a cama.

O rancho, escurecido pela fumaça do fogão e com as janelas fechadas, estava quase na penumbra, iluminado apenas por um lampeão a querozene.
Pedi à Jussara que ficasse de cócoras sobre a cama, amparada pela mãe.
Molhei um pedaço da fralda no alcool e passei diversas vezes na faca e num barbante de costurar saco, que a D.Maria encontrou.
A Jussara chorava, nervosa, quis deitar, examinei e vi que a cabeça do bebê começava a apontar.
Falei: faz força, respira curtinho para não perder impulso. O bebê foi surgindo, percebi que o cordão umbilical estava enrolado no pescoço do bebê. Ia precisar ajudar. Passei alcool nas duas mãos, diversas vezes e agi. Desenrosquei o pescocinho, nem sei como fiz isso, fui puxando devagar e o nenê nasceu.
Não chorou. Não cortei o umbigo, ainda.
Ajeitei o bebê sobre o meu braço, inclinei o mesmo de lado e retirei da boca muita secreção. O nenê chorou e a Jussara também. Respiramos aliviadas. Choramos as três.Eu estava com a blusa molhada de suor e do rosto da Jussara escorria suor e lágrimas.

Aí sim, medi um espaço de 5 dedos acima do umbigo, amarrei bem firme o cordão umbilical e cortei.
Coloquei o nenê sobre a mãe, parou de chorar no mesmo instante e começou a chupar os dedinhos. Coisa mais linda! Cobri os dois e ficamos todas embevecidas, na penumbra, em silêncio, olhando, curtindo aquele momento mágico. Assim, quietas, esperávamos a vinda da placenta.
D.Maria falou: "filha, sopra com força no bico dessa garrafa, que a placenta vem."
Jussara obedeceu e veio a dita cuja. Pedi às duas mulheres, que já haviam chegado com um balde de água, que enterrassem a placenta.
D.Maria e eu, com uma bacia de água, ali mesmo no quarto, fizemos a higiene na mãe e no nenê. Vestimos os dois, cuidadosamente e de forma que ficassem bem arrumados e nos preparamos para ir ao hospital.

Quando abrimos a porta do barraco, fomos recebidos com uma grande salva de palmas pelos moradores que se juntaram no pátio da casa e na estrada. Fomos rodeadas de pessoas querendo ver o bebê. Ali mesmo a Jussara anunciou que o menino iria se chamar Samuel. Alguém já saiu para telefonar para o marido da Jussara que era operário em Canoas.

E a epilética? Estava de pé, junto com as demais pessoas. Levei ambas, mais o nenê e D.Maria ao hospital.
O médico de plantão examinou, constatou que tudo estava perfeito, mas eu insisti que Jussara pernoitasse no hospital. Já eram 18 horas daquele sábado de verão.Levei a epilética de volta, pois o médico falou que ela estava bem. Deu-me os parabéns. Jussara me falou que eu seria a madrinha do Samuel, que deve ter uns 13 anos atualmente. Só a vi uma vez, quando Samuel era, ainda, bebê. Não fui a madrinha, a familia mudou-se para Canoas. Me emociono quando penso que há um Samuel por este mundo que eu ajudei a trazer à luz.




segunda-feira, 30 de abril de 2012

VOU SER AVÓ

Já era mais que hora! Finalmente, estou muito feliz! Minha primeira filha vai ser mãe, na primeira quinzena de setembro.
A notícia trouxe muita alegria e está mobilizando todos nós.
Ainda temos a vida organizada de maneira colaborativa, necessário enquanto os quatro irmãos organizam a vida: trabalho, renda, moradia, etc.
Entre a alegria depensar, fazer e organizar o enxoval e tudo o que é preciso para acolher a pessoinha que chega na familia, eu assisto e ouço preocupações que tivemos quando a Lúcia nasceu. Falo da escolha do médico, do pediatra, do hospital, das conversas em torno do parto (normal ou cezáriana) ou como diz o Pedro: cezariana ou parto vaginal, pois parto normal, atualmente, é a cezariana, o vaginal é exceção.

Antes, ainda, as preocupações com os riscos durante a gravidez, com os receios naturais sobre saúde, da mãe e do bebê, os palpites das pessoas, as sugestões, o relato das experiências das amigas e conhecidas.
Ouço minha filha manifestar o desejo de parto natural, mas ao mesmo tempo a preocupação em não colocar em risco a saúde do bebê.

Ouço os relatos sobre os médicos que não costumam nem tentar parto natural e agendam a cezária conforme as necessidades e conforto para eles próprios. O nenê é que deve  adequar-se às possibilidades da agenda dos obstetras. Alguns médicos nem querem se comprometer com atendimento de partos.
Completando o quinto mês, minha filha ainda não sabe quem vai ajudá-la a ter o bebê. E ela manifesta a mesma preocupação que eu vivi a mais de 30 anos: eu queria tanto parto natural, mas se demorasse e de alguma forma colocasse em risco a saúde do bebê, então a cesariana seria a alternativa. Foi tudo diferente do que imaginei e nas quatro gravidês, meus filhos nasceram de cesarianas.

A medicina parece não ter evoluído nesse sentido., Parece que o tempo parou. A Lúcia tem vivido os mesmos impasses que eu vivi a décadas. Há maravilhas em termos de objetos: carrinhos, mamadeiras, roupinhas, chupetas e tantas coisas que melhoraram mas o momento de nascer, ainda gera muita angústia e ansiedade nas mães.
Tenho revivido tudo isso, procurando encorajar minha filha e torcendo que esse nenê venha ao mundo ao natural, assim, como aquelas criancinhas que nascem nos táxis, porque nem dá tempo de chegar ao hospital, como aquela criança que eu ajudei a nascer em Restinga Seca, por acaso e que de tão rápido não deu tempo de levar ao hospital. Quem sabe acontece um milagre desse tipo!

 Enquanto esperamos, vamos fazendo alguns preparativos para receber a nova criaturinha que em apenas quatro meses estará entre nós e vai nos proporcionar muita ternura, muita alegria e muita poesia.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CECÍLIA LOUCA

Tantas coisas para escrever, mas preciso socializar essa lembrança que tem me perseguido.

Cecília louca foi uma personagem da minha infância e pré-adolescência. Era uma afrodescendente (como se diz hoje), cor de cuia escura, cabelo crespíssimo, característico dos negros, muito preto na raíz e com as pontas avermelhadas, do sol e da poeira e, dizem, nunca fora cortado ou teve as pontas aparadas. A cabeleira ostentava um descomunal volume e, talvez essa era a maior razão pela qual a chamavam de louca.

Mas era no cabelo que residia o mistério daquela mulher andarilha, moradora das estradas empoeiradas daquela localidade.
Por mais que se tentasse faze-la falar, jamais alguém viu seus documentos ou soube do seu sobrenome e sempre andava só.

Os moradores daquela localidade - um vilarejo rural chamado de São Gabriel, devido ao anjo padroeiro que havia na Capela da vila, hoje município de Ametista do Sul, situado entre Iraí e Frederico Westphalen - contavam muitas histórias sobre a Cecília Louca.
Os cabelos faziam parte das histórias. Diziam que ela tinha muita força e que a força vinha dos cabelos que nunca haviam sido cortados. Certamente inspiravam-se no personagem bíblico Sansão. E era essa força que fazia com que ninguém conseguisse cortar seus cabelos ou tirá-la das estradas de chão.

Cresci ouvindo que os cabelos eram, também, um grande problema, pois que serviam de esconderijo e morada de insetos e era por causa deles que ela se debatia, saia correndo, jogava-se na água...mas não os cortava.
Falavam que ela escondia nos cabelos o pouco dinheiro que conseguia, pedindo ou, diziam, roubando, embora ninguém jamais tivesse conseguido testemunhar nenhum ato ilícito da Cecília.

Muitas vezes cruzei com ela quando ia à escola ou quando ia no boteco comprar alguma encomenda de meus pais. Algumas vezes eu passei por ela em disparada, sem olhar para trás, de medo. Outras vezes me embrenhei nas trilhas pelo meio do potreiro ou das capoeiras, para evitar encontrá-la.
Um belo dia, numa dessas cruzadas, ela me chamou pelo nome.
Que susto! Como ela sabe o meu nome?

_ Terezinha, vem cá, não tenha medo!

Parei e olhei e daqueles lábios grossos brotou um sorriso escuro, semi-desdentado.
Cheguei perto, de mansinho, ela parou e me olhou com um olhar manso e eu vi de perto a cabeleira, os olhos grandes e muito escuros, a boca bem torneada. O medo passou e eu até achei ela menos feia. E concluí que ela tinha uma certa beleza.

Ela falou: _ Não precisa ter medo de mim, também sou gente!

E foi só. Saiu caminhando com o mesmo passo de andarilha. Em poucos minutos sumiu de minha vista.

Era uma mulher de estatura média, roupas surradas, um tamanco nos pés, usava vestido, mangas compridas, decote em vê, busto grande. Avalio, com a lembrança que tenho hoje, que ela deveria ter uns 35 anos. Falava pouco, só o necessário para pedir alimento e água.
Eu a vi outras vezes e uma ocasião a vi grávida, quando chegou em nossa casa e pediu água. Tomou a água sentada na grama do jardim, sem pressa e sem falar, com uma das mãos apoiadas na enorme barriga.
Passou uns tempos sumida e voltou sem barriga e sem o filho. Dizem que teve vários e que sempre doava e voltava a andar.

Ninguém sabia onde ela dormia. Não levava nada com ela. Nunca a vi com sacola ou algo parecido. Sumia e aparecia de repente. Esse mistério me atemorizava e me encantava.

Passei alguns anos fora da localidade, no colégio de freiras em Iraí. Voltei adolescente.
Em uma dessas voltas, de férias, eu, minha irmã e algumas colegas, a vimos novamente caminhando pelas estradas. O cabelo ainda maior, muito empoeirada e resolvemos fazer " um bem" à Cecília.
Estava decidido, iríamos enfrentar nossos medos e juntas iríamos cortar-lhe a imensa cabeleira, faze-la tomar banho e dar-lhe roupas novas e limpas.
Pensávamos conversar com ela, mas se ela não concordasse, nós a pegaríamos a força para a faxina.

Nos preparamos, observamos seus trajetos e um dia, tesoura na sacola, pegamos a estrada.
Andamos muito e a encontramos. Ela, parece ter adivinhado nossa intenção, não deixou nem que nos aproximássemos. Quanto mais a gente apertava o passo, mais ela andava e nos fazia de bobas. Ela se divertiu às nossas custas. Cansamos e desistimos.
Olhei para trás e a vi rindo. Foi a última vez que a vi.

Lembro-me de nosso pai ter dito, ao ouvir sobre nossa tentativa:
_Deixem a Cecília, ela gosta de viver assim. Não incomodem mais a pobre mulher!

Agora, passadas tantas décadas, eu me lembro seguido daquele episódio e fico pensando na nossa arrogância de adolescentes e no desrespeito também.
Hoje, quando penso na Cecília Louca, e penso seguidamente, eu me lembro da música "Geni" cantada por Chico Buarque e uma palavra me vem para definir as duas: generosidade.

A Geni, do Chico, significa uma homenagem às milhares de Cecílias Loucas que andam pelo mundo, sem que ninguém saiba quem são, de onde vieram. Vivem com tão pouco, doando o próprio corpo. Deixam filhos pelo mundo e deixam lembranças. Se aquela Cecília era louca? Hoje avalio que não. Ela era mansa, paciente e misteriosa.