domingo, 28 de outubro de 2012

“PARTO NORMAL? Não acredito!”



De tanto ouvir expressões de espanto sobre o fato de minha filha Lúcia (foto) ter parido o Antônio de parto normal, fui investigar o assunto.



Parto Normal -Normalmente interpretamos como normal algo que é muito adotado e reconhecido por todos, por ser rotineiro. Trazendo isso como premissa, na questão dos partos, no Brasil, parto normal significa parto por cesariana porque é a forma mais adotada para trazer à luz os bebês. Portanto, no Brasil, o parto normal é a cesariana, o parto vaginal deixou de ser o normal, tornou-se exceção.

Qual a realidade brasileira em relação aos partos?
De acordo com a OMC (Organização Mundial da Saúde) o Brasil é o país campeão mundial no uso das cesarianas. Segundo essa órgão, as pesquisas mostram que em torno de 15% das gestantes realmente necessitam de cesarianas devido a algum tipo de complicação, com a mãe ou com o bebê, tais como o posicionamento do bebê no útero ou a falta de dilatação na mãe, para a passagem da criança, além de outras complicações de saúde em que é recomendado a cesariana, pelo bem do bebê e da mãe.
É um ótimo recurso da medicina; o problema é que de exceção a cesariana passou à regra  geral.
Há países na América Latina em que a cesariana é um acontecimento, causa espanto, pela sua raridade. É o caso do Uruguai.
No Brasil as regiões Sul e Sudeste são as que apresentam os mais altos índices de cesarianas, superando os 50%. Há hospitais particulares onde os índices chegam a 100% dos partos e na maioria dos hospitais particulares os índices superam os 70%. As pesquisas mostram que quanto maior o nível de renda, maior o índice de cesarianas pré-agendadas, em que a gestante não espera entrar em trabalho de parto e não chega a sentir nenhum tipo de manifestação dolorosa anunciando a hora do bebê nascer. A hora é determinada pelos médicos assessorados pelos ultrasons.



Os estados em que o percentual de cesáreas é menor são o Acre e Amapá. Esses estados ajudam a puxar para baixo o percentual de cesarianas do país, fazendo com que fique em torno de 50%, ainda assim o maior do mundo.
Consegui com uma médica, que obteve diretamente da fonte, a informação sobre o percentual real de partos naturais (vaginais) realizados no Hospital de Caridade de Santa Maria. De janeiro à metade de setembro deste ano, o percentual chegou a 1,3% dos partos realizados nesse hospital.
Percebemos isso no curto espaço de tempo em que minha filha esteve no referido hospital para parir o Antônio. No quarto coletivo em que baixou por uma noite, havia mais duas parturientes, tomando soro com medicação para pararem as contrações e realizarem cesarianas. Conversando com elas sobre as razões, o argumento era de que o parto por cesariana seria melhor para elas e para os bebês, segundo suas obstetras. Pura produção de medo.


Produção do medo:
Medo da dor;
Medo de o bebê passar da hora;
Medo de não ter quem atenda o parto normal, em caso de demora;
Medo de ficar com a vagina deformada e ser rejeitada, posteriormente, pelos companheiros;
Medo que o bebê sofra durante o parto;

Enfim, são muitas as formas de instigar o medo nas pobres mães. Nesse sentido, parece que nos últimos 30 anos não houve evolução. Vivi isso no passado. Ouvi os mesmos argumentos que minha filha ouviu, senti as mesmas dúvidas e medos que ela sentiu e não teve forma: fui forçada às cesarianas, frustração que carrego comigo e indignação também. Isso teve muitas consequências na minha vida.

Os médicos não oferecem a tranquilidade que a mãe necessita e procura no momento de maior temor e fragilidade de sua vida. Momento em que você precisa confiar, em que você não quer o risco para a vida do seu bebê e para a sua própria  vida. 

O que as gestantes ouvem de médicos e outras pessoas durante esse período pré-nascimento de seus filhos?
“Não posso ficar tantas horas do teu lado, esperando o parto normal”;
“Isso vai te custar caro, pois o plano de saúde não remunera esse tempo”;
“Anestesia só é coberta pelo SUS para as cesarianas”;
“É difícil parto natural, as mulheres não suportam a dor”;
“É arriscado para o bebê, ele pode passar da hora e entrar em sofrimento e ficar com problemas”;
“Não faço parto normal, só faço cesariana”!

Foi isso que ouvi, foi isso que a Lúcia ouviu, de diversos médicos, até encontrar um que concordou em esperar o parto natural. Além disso, os obstetras sabem que não há ambiente adequado e nem preparação adequada que incentivem e facilitem os partos naturais. A própria formação médica é precária nesse sentido, segundo relato que obtive de uma médica.
 





Riscos e custos
De acordo com informações que obtive em diversos blogs, pude concluir que:
- Os riscos de mortalidade materna são 4 vezes maiores no parto por cesárea do que no parto vaginal. No Brasil, campeão em cesáreas, morrem, de parto, 1 mulher por minuto.
- As cesarianas custam mais caro ao SUS, pelo tempo maior de internação da mãe e porque exige maiores cuidados com os bebês, principalmente nas cesáreas em que a mãe não entra em trabalho de parto, há, comprovadamente, complicações respiratórias no recém-nascido.

E o medo da dor?
Esse medo tem sido alimentado.Durante milênios as mulheres deram à luz, quando não havia procedimentos cirúrgicos. Havia sabedoria no lidar com a dor.
Comprovadamente a imersão na água relaxa e reduz a dor. Esse é um exemplo de um recurso muito utilizado pelas mães indígenas e que a cultura médica ocidental pouco utiliza.

Desumanizaram, burocratizaram e brutalizaram os partos:
Jogam as mulheres numa cama dura, deitada de costas, constrangida pela presença de estranhos, sem conforto, com medo, totalmente insegura.
Os obstetras não orientam as mulheres em relação ao preparo anterior ao parto: exercícios (ilustração), ginásticas, hidroginásticas, exercícios respiratórios, etc.



Nas cesarianas não tem dor?
Têm muitas dores, diferentes, talvez menos intensas, mas muito mais prolongadas, acompanhadas de outros tantos desconfortos: vômitos, dificuldade para urinar, para evacuar,  mobilidade reduzida, além de outras possibilidades de complicações que as cirurgias trazem.

Vantagens das cesarianas?
As cesarianas são ótimas para evitar mortes de complicações em parturientes que não poderiam parir naturalmente seus filhos.
Mas atualmente seu uso abusivo certamente atende muito mais às agendas dos médicos, que gastam menos tempo com os partos e podem atender um número bem maior de mulheres.
Creio que poderiam ser organizadas equipes de enfermagem, instalando ambientes com recursos que oferecessem maior conforto para aliviar a dor, como banheiras de água, por exemplo, além de investimento significativo na formação médica que alterasse os atuais paradigmas. Obviamente teria que alterar a política de remuneração aos profissionais e investir muito mais na estrutura necessária às mudanças no tratamento destinado às formas de se acolher as novas vidas humanas, que continuam nascendo.

Pergunta:
 Por que o Sistema de Saúde não providencia esses recursos para incentivar os partos naturais, que são mais baratos ao SUS e trazem maiores benefícios à mãe e aos bebês?
É a pergunta que incomoda e nos leva a pensar que a resposta esteja relacionada às mesmas causas que historicamente sujeitaram as mulheres e as crianças à violência e ao desrespeito.



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Educação precisa de respostas?



Há um empenho muito grande em procurar respostas para a educação vide a campanha do grupo RBS intitulada "A Educação Precisa de Respostas" (foto). Não seria mais eficaz  produzir questionamentos e problematizações sobre a escola? Abri-la, vasculhar seus meandros e segredos? Dificilmente questionamos a instituição, suas regras, suas normas e seus valores: questões intocáveis. Ouvimos repetidamente: “ todos dentro da escola, em tempo integral, desde a primeira infância”.Dificilmente duvidamos do seu ordenamento, do seu processo. Só olhamos os resultados. Procuramos os culpados pelo insucesso: os pais, os alunos, os professores ou os governos; jamais a lógica e a rotina estrutural da instituição escolar.



            Normalmente confundimos ensino com educação. São ordenamentos diferentes, quase excludentes. Ensino diz respeito à instrução, informação de saberes e fazeres de algo ou alguém que já fez, concluiu, acumulou e precisa ser transmitido e assimilado por alguém que não sabe, não concluiu e nem acumulou.      Educação diz respeito à processualidade, dialogicidade, construção humana, desenvolvimento de potências, de afetos, autonomização, comunicação e convivência democrática. 

            Tem se evidenciado difícil a possibilidade de ensinar e educar num mesmo ato, ao mesmo tempo. Ensinar é uma ação hierárquica, monológica, desigual, fechada, com resultados e respostas únicas. Educar é ação horizontal, dialógica, inconclusa, emancipatória, aberta ao devir dos sujeitos.

            A escola sempre foi, até então, promotora de ensino e instrução. Toda sua estrutura de tempo, espaços de poder, relações interpessoais, lembram as estruturas dos quartéis e das fábricas, cujas características podem ser descritas como a de que todos devem assimilar os mesmos conteúdos, ao mesmo tempo, num mesmo espaço e num só ritmo; incentivo à competição, individualismo, inatividade, com restrição às manifestações (falas), mera coincidência com a “ordem unida”, desconsiderando as diferenças, as necessidades e peculiaridades dos sujeitos concretos.  Mensalmente aplicam-se provas, testes, trabalhos para medir e testar a qualidade da “matéria prima” que precisa ser beneficiada. Muros cada vez mais altos, para ninguém fugir, câmaras de vídeos pelos corredores, salas e banheiros, auxiliares de disciplina, vigilantes nos pátios, práticas de confinamento. Enfim, uma máquina engendrada na tentativa, cada vez mais difícil, de domesticação de corpos, mentes e desejos de crianças e jovens.  



            Certamente, na escola de resultados e  respostas, na proposta dos governos e parte da sociedade, é conveniente não questionar essa “caixa preta” pois ela está moldada para formar cidadãos obedientes, submetidos a um padrão de consumo e de comportamento e  pouco críticos e criativos, bem ao gosto do sistema econômico e social que vivemos.
             Os jovens e as crianças se recusam a serem ensinados desta forma, o que pode ser considerado uma saudável resistência. Pouca aprendizagem, repetência, evasão e indisciplina são alguns sintomas deste mal estar epidêmico nos alunos e professores de nossas escolas.

            Educação não faz crescer o PIB, educação faz crescer o FIB (Felicidade Interna Bruta). O Ensino fazia crescer o PIB, já não faz mais, pois a realidade mostra que o PIB cresceu. Apesar da crise na educação escolar, somos o 6º no ranking mundial, mas o 88º no ensino. Crescimento econômico não depende mais, necessariamente, do ensino.

 A produtividade do trabalho depende, cada vez mais, das pessoas entrarem no circuito de comunicação com redes e grupos disseminados em toda a sociedade. É o “Intelecto Geral” (Marx) socializado em toda a sociedade e plugado pela enorme capacidade de aprendizagem que todas as pessoas têm. A sociedade é pedagógica, ensina, educa, porque somos eternos aprendizes, apesar da escola.
            O ensino fazia crescer o PIB quando o ritmo da escola e do seu ensino era adequado ao modo de produção da sociedade industrial. Atualmente há um descompasso entre a lentidão da estrutura de ensino e a velocidade do conhecimento na sociedade da comunicação e do conhecimento, chamada também de sociedade pós-industrial. Defasagem também entre os valores da escola: competição, sucesso pessoal, individualismo, repetição de conhecimento acumulado, entre outros e os valores e habilidades  do trabalho e da produção no mundo contemporâneo, quais sejam: cooperação, comunicação, trabalho em rede, produção de sentido e de afetos e capacidades inventivas.


Sendo a escola um espaço de encontro de pessoas, ela pode sim se constituir num espaço de potencialização dos sujeitos, desde que suas portas se abram para o mundo, suas rotinas e práticas se dinamizem e funcionem de forma horizontal, circular, na conversação, no diálogo, nos desafios problematizadores, que instigam a pesquisa, a aprendizagem inventiva, a comunicação, os afetos, a busca de reinvenção de si e dos modos de produzir e de conviver com a natureza.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ANTONIO: Meu primeiro neto

Dia 17 de setembro nasceu, de parto normal, o Antonio Dalmaso Palma, filho da nossa filha Lúcia e de Leonardo Retamoso Palma. 
O nome é muito simples, ter filho e ser avó é algo muuuuito comum. Acontece com todo mundo, mas embora tudo faça parte do cotidiano da vida, eu preciso falar de minha alegria, gosto de falar dela, de dizer a todo mundo o quanto estou e estamos todos muito felizes, em nossa familia. Abençoada filha que nos presenteou com esse neto. É maravilhoso ver a vida se renovar e ter entre nós um novo rostinho.

Já não é mais tão comum o parto vaginal. A Lúcia insistiu, foi muito corajosa e apesar das dúvidas do seu obstetra, a Lúcia o pariu, em meio a dores, é claro, receios e coragem. Ficou em casa até as dores apertarem e acontecerem de 4 em 4 minutos.Só então  eu a levei ao hospital  as 21 horas e  as 22:45 o Antonio nasceu, pesando 3 Kg. e 564g. e medindo 53 cm. Um bebezão! Eu, a Alice e o Leonardo ficamos com a Lúcia durante todo o trabalho de parto, só foi para a sala de obstetrícia, quando o Antoniio começava a apontar. Foi muito emocionante! A Lúcia foi maravilhosa!


Senti uma emoção tão grande, comparável às que senti quando do nascimento dos meus filhos.
É difícil poder escrever sobre o que senti e continuo sentindo ao ver a carinha do meu neto, ao ver a Lúcia e o Leonardo lidarem com o filho, ao ver a Lúcia amamentar. 
E como ela insistiu para amamentar! Demorou quase 10 dias para que o leite viessa o suficiente. Me doía ver o guri insistindo tanto e engolindo aos pouquinhos. E ele fez tudo certinho: pegou bem o peito, puxava (apojava como um terneirinho novo). Ao contrário do que me parece mais comum, o leite vir no terceiro dia, em volume grande que chega a empedrar no peito, com a Lúcia ele foi aumentando aos poucos. 

O Antonio perdeu peso nos primeiros dias, o que é normal, mas depois ia adquirindo peso, aos poucos. Hoje a Lúcia tem bastante leite, meu netinho está satisfeito, está engordando muito bem e é muito bonzinho. Muito saudável e calminho!

Ia dizendo que é difícil escrever sobre emoções. Eu não sei fazer isso. Só sei que sinto uma alegria enorme, misturada com uma certa preocupação de mãe (avó) que me faz telefonar todos os dias para saber se dormiu, se mamou bem, etc.
O Irineu e eu nos disponibilizamos a ajudar, mas com o prudência necessária para  não sermos invasivos.
A gente inventa umas desculpas para estar perto: fazer almoço pra todos, passar as roupinhas, dar carona ao pediatra, ajudar no banho, entre outras. No entanto queremos que a Lúcia sinta que estamos solidários para ajudar, respeitando a caminhada que eles farão para criar esse filho, com amor e cuidados.


Cada vez que olho para o Antonio eu me lembro daquela canção que eu cantava para os meus filhos: "  meu coração, não sei porque, bate feliz, quando te vê!..."
Sinto alegria em ver a alegria dos outros meus filhos com o sobrinho. Basta olhar o facebook para constatar e me comoveram muito as manifestações dos amigos e amigas que vibraram com todos nós.

Junto com a alegria vem também as preocupações: como a Lúcia fará para trabalhar? Quem vai cuidar do Antonio? Que idade é conveniente colocar na escola? Como educar, de forma que ele não se transforme num reizinho? A Lúcia fala que o exemplo de vida é o mais importante. Também acho, mas sei que não é tão simples.
É muito bom ser avó! É bom também ver a alegria do vovô Irineu! O Antonio já ocupou, definitivamente, meu coração.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

História de vida, sensibilidade social e cotas


Vou continuar apoiando iniciativas que tenham como objetivo reduzir desigualdades,
 construir mais equidade e justiça social e fico feliz que meus filhos
 continuem a se posicionar dessa forma e espero que melhorar de vida não
 os faça mudarem de lado e esquecerem suas raízes
 e sua responsabilidade humana e social.


História - Na década de 70, o Irineu e eu pegamos nossa filhinha de alguns meses e junto com uns amigos fomos morar na periferia de Porto Alegre (Vila Jardim). Movidos pelo compromisso em construir uma sociedade melhor, fomos juntos, de forma comunitária, tentar viver outro modo de vida.  Primeiro, simplesmente, morando no meio dos empobrecidos e depois a gente foi descobrindo, com eles, as formas de luta que poderíamos e precisaríamos implementar para superar as inúmeras dificuldades para viver com dignidade.
Em plena ditadura militar e com medo constante da repressão (que enfrentamos diversas vezes) fomos vivendo o dia a dia de uma vida de luta, mas também de aprendizado e de alegria, que se aprende no convívio com a “riqueza dos pobres”, de sua criatividade, sua capacidade de improvisar para sobreviver.
Éramos brancos, no meio de uma comunidade majoritariamente negra. Ser branco já é um passaporte de acesso na sociedade de história, mentalidade e práticas escravagistas. Mas nós estávamos lá, com a comunidade. A vida e o tempo foram mostrando as urgências. Fome, violência, lixo, esgoto a céu aberto, doenças... Tudo foi se evidenciando e nos atingindo também, de algum modo.



Personagens - Lembro-me da Jurema, moradora de um beco, que em duas gestações teve quatro filhos. O marido, funcionário de um frigorífico, trabalhava na câmara fria, e, doente dos pulmões, foi demitido. Desesperado, jogou-se de uma ponte e morreu. A Jurema, saia de madrugada, colocava os filhos nas portas das casas, sem avisar  e saia a fazer faxina. Voltava à noite, recolhia os filhos, agradecia e deixava um litro de leite para quem havia cuidado de seus filhos. A situação ficou tensa. Percebemos que eram muitas as Juremas da vida. Reunimos um grupo de pessoas, na maioria mulheres e criamos a “equipe do socorro”, estruturando no salão da igrejinha uma creche, com trabalho voluntário. Com meus conhecimentos de contadora, conseguimos captar recursos de empresas, legalizar a creche, que se firmou e, pelo que sei, ainda existe, hoje assumida pela Prefeitura. A Jurema pôde trabalhar sossegada, seus filhos eram alimentados e cuidados.
Era comum, mulheres baterem a nossa porta para pedir açúcar emprestado. Motivo? Adoçar a água para seus bebês, na falta do leite.
Lá presenciamos muito sofrimento, muita luta. Vimos as águas arrastarem barracos construídos sobre o valão do esgoto. Ajudamos enterrar as vítimas. Lá organizamos mobilizações, corremos da repressão, alfabetizamos adultos, reivindicamos os médicos de famílias, que se hospedavam em nossa casa. Organizamos assistência jurídica, entre outras coisas. Meu marido presidindo a associação de moradores da vila. Nesse período da ditadura, proliferavam as associações de moradores, forma de participação então permitida pela ditadura. Conquistada, evidentemente.
Não havia PT, não havia democracia.

Filhos - E no meio de toda essa luta foram nascendo os filhos. Dez anos depois nos mudamos para o interior de Restinga Seca, no meio dos pequenos agricultores. Pegamos o período da constituição de 1988  e participamos das mobilizações pelas conquistas sociais da “Constituição Cidadã”. Lutamos pela aposentadoria da mulher da roça, pelo SUS... Na nossa comunidade, as lutas do cotidiano para viver com dignidade: transporte escolar, por exemplo, que era caótico.
Ali tivemos mais uma filha, a quarta. Não iam à escola levados e trazidos de carro particular, não tinham acesso às aulas de reforço, de idiomas, à biblioteca no turno inverso, assim como também não tinham todos os outros filhos de moradores do interior. Era preciso estar cedo na estrada esperando aquele ônibus, desconfortável, quase sempre atrasado, naquelas estradas barrentas, algumas vezes caindo nos barrancos. Nossos filhos junto e nós também. Vimos muitos desistirem, rodarem sistematicamente, terem de abandonar a escola para ajudar no plantio do fumo.
Criar os filhos dessa forma educa e sensibiliza para a compreensão social. Só isso já bastaria para que nos posicionemos a favor de iniciativas de inclusão social e de redução das desigualdades econômicas e sociais, porque não basta ser igual perante a lei, a igualdade que interessa é a das condições de vida.



Negros - Mas sabemos, e meus filhos também sabem, que ao nascermos brancos, descendentes de imigrantes europeus já nascemos com um elemento a mais no nosso “currículo” de vida que nos facilita a acessibilidade. Entendemos que herdamos também as responsabilidades pela extorsão e pelo genocídio que nossos ancestrais europeus promoveram ao invadir as terras que hoje são o Brasil, tomando-as  dos índios, matando-os, escravizando (índios e negros). Quem não estudou sobre Domingos Jorge Velho, o bandeirante que “desbravava” as matas caçando índios, trazendo amarrados homens, que iam para o trabalho escravo, mulheres que eram estupradas e depois mortas, junto com seus filhos (alguns bebês), às vezes servindo de alvo para o treinamento de tiro?
Milhares morreram (tribos inteiras) de doenças transmitidas pelos brancos europeus.
E os negros? Porque será que os analfabetos, pobres e favelados são majoritariamente negros, até hoje?
Levam-se séculos para alterar realidades sociais.
Existem incontáveis documentos, legislações arquivadas, que provam a barreira social histórica contra os negros. Eram proibidos de votar, não podiam legalmente ser proprietários de terras, mesmo que pudessem comprá-las não as podiam registrar em cartório, isso até o início do século XX. Os filhos dos negros eram proibidos de irem às escolas, mesmo as poucas escolas públicas, que foram fundadas para os brancos. Os mortos negros não podiam ser enterrados nos cemitérios dos brancos e muito menos frequentar os clubes dos brancos e isso em pleno século XX. Se acontecia algum delito a polícia suspeitava e prendia, para averiguação, sempre os negros em primeiro lugar. Nesse caso, os negros sempre ocuparam os primeiros lugares. Ainda é assim.


Cotas - Creio que a classe média tem, sim, muitos motivos para lutar: pela qualidade da educação, que requer mudanças estruturais, com muito maior investimento, lutas contra a má qualidade dos alimentos, os pesticidas que geram tantas doenças, luta contra a abusiva tabela de Imposto de Renda em relação aos ganhos decorrentes do trabalho, que deveria ter as alíquotas reduzidas e aumentadas nos ganhos de capital e especulativos: dos bancos, das especulações imobiliárias e financeiras, dos latifundiários que não pagam IR. Lutas ambientais, etc.
A Lei de cotas pode até ter equívocos, ser eleitoreira, como alguns afirmam, mas tem um profundo caráter social, de solidariedade social. Durante sua aplicação, creio, será necessário ir aparando arestas, aperfeiçoando-a, e quem sabe, em algum tempo, ser possível dizer que não é mais necessária.
Tenho lido manifestações ressentidas contra essa lei, com argumentações precárias, o que me entristece.
Não gosto de ouvir que o Brasil não é um país sério quando se trata de leis de caráter social. Pode não ser sério por outras coisas como o modo predatório de produção, de desmatamento promovido por madeireiros inescrupulosos ou por criadores de gado, pela poluição e mau uso das águas, pelo modelo econômico neo-desenvolvimentista que isenta de IPI as indústrias automobilísticas e injeta dinheiro ao BNDS para setores empresariais grandes, que continuam desempregando trabalhadores. Pelo modo com que cuidamos dos alimentos, da natureza, do trânsito.
Mas nunca porque arrisca alguns programas sociais.

Vou continuar apoiando iniciativas que tenham como objetivo reduzir desigualdades, construir mais equidade e justiça social e fico feliz que meus filhos continuem a se posicionar dessa forma e espero que melhorar de vida não os faça mudarem de lado e esquecerem suas raízes e sua responsabilidade humana e social.

sábado, 12 de maio de 2012

MATRIZ, MATRIARCA OU MÃE?

Amanhã é o dia das mães, instituído, certamente, com a intenção de ser mais uma data que o mercado aproveita para vender. Durante o processo de propaganda dos produtos, o mercado, na tentativa de agradar, vai publicizando um referencial sobre as mães. Nesses dias a maternidade é abordada de forma fetichizada e os paradigmas são, sem dúvida, os que defendem o amor incondicional, eterno, perfeito. As mães apresentadas são naturalizadas, santificadas, belas e a maioria jovem.
Fico refletindo e comparando com as realidades que conheço e constato que na vida real não é bem assim.

A maternidade  é permeada de todas as características conflituosas,que têm  os relacionamentos que a humanidade estabelece, principalmente os de cunho familiar: instituição repleta de relações altamente conflituosas. A familia, também  colocada sob uma auréola de importância fundamental e sob os belos discursos, toda a sua crise é escamoteada.
Sobre isso quero refletir:

Tem mães matrizes: geram, dão à luz, algumas até amamentam, como outras fêmeas do reino dos mamíferos e depois vão entregando suas crias para os "outros" (instituições). Terceirizam os cuidados, a educação e até o afeto é patrocinado. Não falo de abandono, falo de familias bem constituidas, mas que os cuidados, dentro da familia, com os filhos não são, via de regra, desempenhados pelas mães, mesmo quando elas poderiam fazer isso.

Tem também as matriarcas. Estas são mais que matrizes. Entendem que a maternidade lhes dá o direito de mando, de considerações especiais, de atribuições que perduram durante todo o tempo em que vivem, em relação a seus filhos; Entre as "sagradas" atribuições de mãe (matriarca) estão a de opinar sobre tudo (e impor as opiniões), querer saber tudo sobre a vida dos filhos e principalmente sobre a vida das filhas, interferir sempre, invadir a privacidade, aconselhar (ou determinar), receber "ajuda"(obrigação dos filhos e direito da mãe), ser paparicada, fazer chantagem emocional, impor sua presença, às vezes inconveniente, monitorar tudo, em nome do suposto amor materno ilimitado, "gratuito" e " sagrado". Há quem atribua à mãe poderes especiais, de premunição, de direito e capacidade divina de abençoar ou de amaldiçoar.
Exageros à parte, já vi tudo isso nas minhas andanças de militante.

Por favor, meus filhos, não me deixem ser matriarca!

E, finalmente, tem as mães (e os pais) que escolhem e decidem fazerem-se, constituirem-se mães. Assumem-se como seres mamíferos, aceitam os instintos (que são bons) e vão muito além. Optam por acolher, cuidar e assumem essa relação de cuidado e acolhimento em relação aos filhos dos outros também e no diálogo, considerando, como diz Maturana, a "legitimidade" do ser de cada um e cada uma, momento a momento da vida, com as alegrias, as contrariedades, as dificuldades, os conflitos, as diferenças, num processo constituinte de compartilhamento, de cooperação, de ir construindo as relações, com todos os envolvidos, ao ir vivendo, na verdade das emoções e das ações do dia a dia.

Nesse processo verdadeiro, ninguém precisa ser perfeito, a gente pode e deve mostrar as emoções: carinho, raiva, dor, alegria. A gente pode errar, pedir perdão, voltar atrás, no diálogo verdadeiro. Até porque não adianta querer enganar os filhos, eles nos conhecem e nos ajudam a crescer.

E eles crescem, saem, amadurecem, sofrem, erram, aprendem, às vezes somem e voltam.
Nós, mães e pais, vamos abrindo novos caminhos, autônomos em relação a eles, já sem eles por perto, mas sempre com espaço na vida (e na casa) para recebê-los, ouvi-los, ajudá-los, pedir ajuda, enfim, ir compartilhando.
Não existem obrigações mútuas e não é por obrigação que eles voltam.
Eu queria que fosse por se sentirem atraídos, seduzidos por nosso amor, nossa sabedoria, nossa comida boa, nossa alegria.

Eles sabem: na casa e no nosso coração, sempre haverá lugar para acolhe-los e junto com eles, acolher tudo e todos que trouxerem com suas vidas.
Falo no plutal, porque sou tão mãe quanto pai e o Irineu é tão pai quanto mãe, nos cuidados e no acolhimento. Por isso devia ter o dia dos cuidadores e só. Porque as diferenças entre ser pai e ser mãe, desejamos, sejam cada vez mais confusas.
Por meu lado afirmo: Ser mãe é opção e construção amorosa.