A violência dos assassinatos, das mortes nos acidentes de trânsito, das negligências com a vida, da banalização da morte, da corrupção, do abandono de menores, das agressões às mulheres, do racismo, entre tantas outras formas de violência, já bastam para nos entristecer profundamente e nos envergonhar. Será que basta? Parece que não, tal o esforço dos meios de comunicação para amplificar os acontecimentos tristes com a ampla e bem explorada divulgação. Tão ampla que nenhum acontecimento triste ou trágico que ocorre em qualquer parte do mundo fica sem ganhar enorme visibilidade.
Muitos ainda são reproduzidos insistentemente no facebook.
Contamina-se a vida com o medo, ampliam-se as paixões tristes. Quanto mais isso é produzido, reproduzido, mais aumenta o medo e a inércia. Menos ações coletivas e mais cercas, grades, armas, guardas, câmaras e isolamento. Mais isolamento, mais perigo!
É pertinente lembrar Espinosa que tinha muita razão ao afirmar que as paixões tristes nos despotencializam. Medo, desconfiança, ódio, ressentimento, remorso, tristeza...nos fazem encolher e produzem sociedades doentes, violentas. A gente vê isso nos atiradores e no belicismo da sociedade norte americana ou na sociedade israelita, tão intolerante com o mundo árabe, tão armada e tão violenta e em toda parte, nos modos de vida que produzem e reproduzem a violência.
Leiamos Espinosa, comentados por Deleuse:
"Espinosa oferece uma imagem da vida positiva e afirmativa, em detrimento dos simulacros com os quais os homens se contentam. Não só os que com eles se comprazem, mas tamnbém o homem cheio de ódio à vida, envergonhado da vida, o homem da autodestruição que multiplica os cultos à morte,que faz a união sagrada do tirano e do escravo, do sacerdote, do juis e do guerreiro, sempre prestes a encurralar a vida, a mutilá-la, assassiná-la lenta ou bruscamente, que a recobre ou a sufoca com leis, propriedades, deveres, impérios, eis o diagnóstico que Espinosa faz do mundo, esta traição do universo e do homem."(Deleuze, 2002: Espinosa, filosofia prática. Pág. 18. Edit.Escuta)
É preciso produzir alegria, divulgá-la, reproduzi-la: alegrias das paixões alegres. As alegrias da partilha, da frugalidade, da simplicidade, dos cuidados com as crianças, com a terra, com as águas, com os todos os seres vivos. As alegrias da fraternidade, do perdão, da arte, e de tudo o que potencializa a vida.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
domingo, 28 de outubro de 2012
“PARTO NORMAL? Não acredito!”
De tanto
ouvir expressões de espanto sobre o fato de minha filha Lúcia (foto) ter parido o Antônio
de parto normal, fui investigar o assunto.
Parto Normal -Normalmente interpretamos como
normal algo que é muito adotado e reconhecido por todos, por ser rotineiro.
Trazendo isso como premissa, na questão dos partos, no Brasil, parto normal
significa parto por cesariana porque é a forma mais adotada para trazer à luz
os bebês. Portanto, no Brasil, o parto normal é a cesariana, o parto vaginal
deixou de ser o normal, tornou-se exceção.
Qual a realidade brasileira em
relação aos partos?
De acordo
com a OMC (Organização Mundial da Saúde) o Brasil é o país campeão mundial no
uso das cesarianas. Segundo essa órgão, as pesquisas mostram que em torno de
15% das gestantes realmente necessitam de cesarianas devido a algum tipo de
complicação, com a mãe ou com o bebê, tais como o posicionamento do bebê no
útero ou a falta de dilatação na mãe, para a passagem da criança, além de
outras complicações de saúde em que é recomendado a cesariana, pelo bem do bebê
e da mãe.
É um ótimo
recurso da medicina; o problema é que de exceção a cesariana passou à
regra geral.
Há países na
América Latina em que a cesariana é um acontecimento, causa espanto, pela sua
raridade. É o caso do Uruguai.
No Brasil as
regiões Sul e Sudeste são as que apresentam os mais altos índices de
cesarianas, superando os 50%. Há hospitais particulares onde os índices chegam
a 100% dos partos e na maioria dos hospitais particulares os índices superam os
70%. As pesquisas mostram que quanto maior o nível de renda, maior o índice de
cesarianas pré-agendadas, em que a gestante não espera entrar em trabalho de
parto e não chega a sentir nenhum tipo de manifestação dolorosa anunciando a
hora do bebê nascer. A hora é determinada pelos médicos assessorados pelos
ultrasons.
Os estados
em que o percentual de cesáreas é menor são o Acre e Amapá. Esses estados
ajudam a puxar para baixo o percentual de cesarianas do país, fazendo com que
fique em torno de 50%, ainda assim o maior do mundo.
Consegui com
uma médica, que obteve diretamente da fonte, a informação sobre o percentual
real de partos naturais (vaginais) realizados no Hospital de Caridade de Santa
Maria. De janeiro à metade de setembro
deste ano, o percentual chegou a 1,3% dos partos realizados nesse hospital.
Percebemos
isso no curto espaço de tempo em que minha filha esteve no referido hospital
para parir o Antônio. No quarto coletivo em que baixou por uma noite, havia
mais duas parturientes, tomando soro com medicação para pararem as contrações e
realizarem cesarianas. Conversando com elas sobre as razões, o argumento era de
que o parto por cesariana seria melhor para elas e para os bebês, segundo suas
obstetras. Pura produção de medo.
Produção do medo:
Medo da dor;
Medo de o
bebê passar da hora;
Medo de não
ter quem atenda o parto normal, em caso de demora;
Medo de
ficar com a vagina deformada e ser rejeitada, posteriormente, pelos
companheiros;
Medo que o
bebê sofra durante o parto;
Enfim, são
muitas as formas de instigar o medo nas pobres mães. Nesse sentido, parece que
nos últimos 30 anos não houve evolução. Vivi isso no passado. Ouvi os mesmos
argumentos que minha filha ouviu, senti as mesmas dúvidas e medos que ela
sentiu e não teve forma: fui forçada às cesarianas, frustração que carrego comigo
e indignação também. Isso teve muitas consequências na minha vida.
Os médicos não oferecem a tranquilidade que a
mãe necessita e procura no momento de maior temor e fragilidade de sua vida. Momento em
que você precisa confiar, em que você não quer o risco para a vida do seu bebê
e para a sua própria vida.
O que as
gestantes ouvem de médicos e outras pessoas durante esse período pré-nascimento
de seus filhos?
“Não posso ficar tantas horas do teu
lado, esperando o parto normal”;
“Isso vai te custar caro, pois o
plano de saúde não remunera esse tempo”;
“Anestesia só é coberta pelo SUS para
as cesarianas”;
“É difícil parto natural, as mulheres
não suportam a dor”;
“É arriscado para o bebê, ele pode
passar da hora e entrar em sofrimento e ficar com problemas”;
“Não faço
parto normal, só faço cesariana”!
Foi isso que
ouvi, foi isso que a Lúcia ouviu, de diversos médicos, até encontrar um que
concordou em esperar o parto natural. Além disso, os obstetras sabem que não há
ambiente adequado e nem preparação adequada que incentivem e facilitem os
partos naturais. A própria formação médica é precária nesse sentido, segundo relato
que obtive de uma médica.
Riscos e custos
De acordo
com informações que obtive em diversos blogs, pude concluir que:
- Os riscos de mortalidade materna
são 4 vezes maiores no parto por cesárea do que no parto vaginal. No Brasil,
campeão em cesáreas, morrem, de parto, 1 mulher por minuto.
- As
cesarianas custam mais caro ao SUS, pelo tempo maior de internação da mãe e porque
exige maiores cuidados com os bebês, principalmente nas cesáreas em que a mãe
não entra em trabalho de parto, há, comprovadamente, complicações respiratórias
no recém-nascido.
E o medo da dor?
Esse medo
tem sido alimentado.Durante
milênios as mulheres deram à luz, quando não havia procedimentos cirúrgicos.
Havia sabedoria no lidar com a dor.
Comprovadamente
a imersão na água relaxa e reduz a dor. Esse é um exemplo de um recurso muito
utilizado pelas mães indígenas e que a cultura médica ocidental pouco utiliza.
Desumanizaram,
burocratizaram e brutalizaram os partos:
Jogam as
mulheres numa cama dura, deitada de costas, constrangida pela presença de
estranhos, sem conforto, com medo, totalmente insegura.
Os obstetras
não orientam as mulheres em relação ao preparo anterior ao parto: exercícios (ilustração),
ginásticas, hidroginásticas, exercícios respiratórios, etc.
Nas cesarianas não tem dor?
Têm muitas
dores, diferentes, talvez menos intensas, mas muito mais prolongadas, acompanhadas
de outros tantos desconfortos: vômitos, dificuldade para urinar, para evacuar, mobilidade reduzida, além de outras
possibilidades de complicações que as cirurgias trazem.
Vantagens das cesarianas?
As
cesarianas são ótimas para evitar mortes de complicações em parturientes que
não poderiam parir naturalmente seus filhos.
Mas
atualmente seu uso abusivo certamente atende muito mais às agendas dos médicos,
que gastam menos tempo com os partos e podem atender um número bem maior de
mulheres.
Creio que
poderiam ser organizadas equipes de enfermagem, instalando ambientes com
recursos que oferecessem maior conforto para aliviar a dor, como banheiras de
água, por exemplo, além de investimento significativo na formação médica que
alterasse os atuais paradigmas. Obviamente teria que alterar a política de remuneração
aos profissionais e investir muito mais na estrutura necessária às mudanças no
tratamento destinado às formas de se acolher as novas vidas humanas, que
continuam nascendo.
Pergunta:
Por que o Sistema de Saúde não providencia
esses recursos para incentivar os partos naturais, que são mais baratos ao SUS
e trazem maiores benefícios à mãe e aos bebês?
É a pergunta
que incomoda e nos leva a pensar que a resposta esteja relacionada às mesmas
causas que historicamente sujeitaram as mulheres e as crianças à violência e ao
desrespeito.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
A Educação precisa de respostas?
Há um empenho muito grande em procurar respostas para a
educação vide a campanha do grupo RBS intitulada "A Educação Precisa de Respostas" (foto). Não seria mais eficaz produzir
questionamentos e problematizações sobre a escola? Abri-la, vasculhar seus
meandros e segredos? Dificilmente questionamos a instituição, suas regras, suas
normas e seus valores: questões intocáveis. Ouvimos repetidamente: “ todos
dentro da escola, em tempo integral, desde a primeira infância”.Dificilmente duvidamos do seu ordenamento, do seu processo.
Só olhamos os resultados. Procuramos os culpados pelo insucesso: os pais, os
alunos, os professores ou os governos; jamais a lógica e a rotina estrutural da
instituição escolar.
Normalmente confundimos ensino com
educação. São ordenamentos diferentes, quase excludentes. Ensino diz respeito à
instrução, informação de saberes e fazeres de algo ou alguém que já fez,
concluiu, acumulou e precisa ser transmitido e assimilado por alguém que não
sabe, não concluiu e nem acumulou. Educação diz respeito à processualidade,
dialogicidade, construção humana, desenvolvimento de potências, de afetos,
autonomização, comunicação e convivência democrática.
Tem se evidenciado difícil a
possibilidade de ensinar e educar num mesmo ato, ao mesmo tempo. Ensinar é uma
ação hierárquica, monológica, desigual, fechada, com resultados e respostas
únicas. Educar é ação horizontal, dialógica, inconclusa, emancipatória, aberta
ao devir dos sujeitos.
A escola sempre foi, até então,
promotora de ensino e instrução. Toda sua estrutura de tempo, espaços de poder,
relações interpessoais, lembram as estruturas dos quartéis e das fábricas, cujas
características podem ser descritas como a de que todos devem assimilar os
mesmos conteúdos, ao mesmo tempo, num mesmo espaço e num só ritmo; incentivo à
competição, individualismo, inatividade, com restrição às manifestações (falas),
mera coincidência com a “ordem unida”, desconsiderando as diferenças, as
necessidades e peculiaridades dos sujeitos concretos. Mensalmente aplicam-se provas, testes,
trabalhos para medir e testar a qualidade da “matéria prima” que precisa ser
beneficiada. Muros cada vez mais altos, para ninguém fugir, câmaras de vídeos
pelos corredores, salas e banheiros, auxiliares de disciplina, vigilantes nos
pátios, práticas de confinamento. Enfim, uma máquina engendrada na tentativa,
cada vez mais difícil, de domesticação de corpos, mentes e desejos de crianças
e jovens.
Certamente, na escola de resultados e
respostas, na proposta dos governos e
parte da sociedade, é conveniente não questionar essa “caixa preta” pois ela está moldada
para formar cidadãos obedientes, submetidos a um padrão de consumo e de
comportamento e pouco críticos e
criativos, bem ao gosto do sistema econômico e social que vivemos.
Os jovens e as crianças se recusam a
serem ensinados desta forma, o que pode ser considerado uma saudável
resistência. Pouca aprendizagem, repetência, evasão e indisciplina são alguns
sintomas deste mal estar epidêmico nos alunos e professores de nossas escolas.
Educação não faz crescer o PIB,
educação faz crescer o FIB (Felicidade Interna Bruta). O Ensino fazia crescer o
PIB, já não faz mais, pois a realidade mostra que o PIB cresceu. Apesar da
crise na educação escolar, somos o 6º no ranking mundial, mas o 88º no ensino.
Crescimento econômico não depende mais, necessariamente, do ensino.
A produtividade do
trabalho depende, cada vez mais, das pessoas entrarem no circuito de
comunicação com redes e grupos disseminados em toda a sociedade. É o “Intelecto
Geral” (Marx) socializado em toda a sociedade e plugado pela enorme capacidade
de aprendizagem que todas as pessoas têm. A sociedade é pedagógica, ensina,
educa, porque somos eternos aprendizes, apesar da escola.
O ensino fazia crescer o PIB quando
o ritmo da escola e do seu ensino era adequado ao modo de produção da sociedade
industrial. Atualmente há um descompasso entre a lentidão da estrutura de
ensino e a velocidade do conhecimento na sociedade da comunicação e do
conhecimento, chamada também de sociedade pós-industrial. Defasagem também
entre os valores da escola: competição, sucesso pessoal, individualismo,
repetição de conhecimento acumulado, entre outros e os valores e
habilidades do trabalho e da produção no
mundo contemporâneo, quais sejam: cooperação, comunicação, trabalho em rede,
produção de sentido e de afetos e capacidades inventivas.
Sendo a escola um espaço de encontro de pessoas, ela pode sim
se constituir num espaço de potencialização dos sujeitos, desde que suas portas
se abram para o mundo, suas rotinas e práticas se dinamizem e funcionem de
forma horizontal, circular, na conversação, no diálogo, nos desafios
problematizadores, que instigam a pesquisa, a aprendizagem inventiva, a
comunicação, os afetos, a busca de reinvenção de si e dos modos de produzir e
de conviver com a natureza.
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