quarta-feira, 22 de agosto de 2012

História de vida, sensibilidade social e cotas


Vou continuar apoiando iniciativas que tenham como objetivo reduzir desigualdades,
 construir mais equidade e justiça social e fico feliz que meus filhos
 continuem a se posicionar dessa forma e espero que melhorar de vida não
 os faça mudarem de lado e esquecerem suas raízes
 e sua responsabilidade humana e social.


História - Na década de 70, o Irineu e eu pegamos nossa filhinha de alguns meses e junto com uns amigos fomos morar na periferia de Porto Alegre (Vila Jardim). Movidos pelo compromisso em construir uma sociedade melhor, fomos juntos, de forma comunitária, tentar viver outro modo de vida.  Primeiro, simplesmente, morando no meio dos empobrecidos e depois a gente foi descobrindo, com eles, as formas de luta que poderíamos e precisaríamos implementar para superar as inúmeras dificuldades para viver com dignidade.
Em plena ditadura militar e com medo constante da repressão (que enfrentamos diversas vezes) fomos vivendo o dia a dia de uma vida de luta, mas também de aprendizado e de alegria, que se aprende no convívio com a “riqueza dos pobres”, de sua criatividade, sua capacidade de improvisar para sobreviver.
Éramos brancos, no meio de uma comunidade majoritariamente negra. Ser branco já é um passaporte de acesso na sociedade de história, mentalidade e práticas escravagistas. Mas nós estávamos lá, com a comunidade. A vida e o tempo foram mostrando as urgências. Fome, violência, lixo, esgoto a céu aberto, doenças... Tudo foi se evidenciando e nos atingindo também, de algum modo.



Personagens - Lembro-me da Jurema, moradora de um beco, que em duas gestações teve quatro filhos. O marido, funcionário de um frigorífico, trabalhava na câmara fria, e, doente dos pulmões, foi demitido. Desesperado, jogou-se de uma ponte e morreu. A Jurema, saia de madrugada, colocava os filhos nas portas das casas, sem avisar  e saia a fazer faxina. Voltava à noite, recolhia os filhos, agradecia e deixava um litro de leite para quem havia cuidado de seus filhos. A situação ficou tensa. Percebemos que eram muitas as Juremas da vida. Reunimos um grupo de pessoas, na maioria mulheres e criamos a “equipe do socorro”, estruturando no salão da igrejinha uma creche, com trabalho voluntário. Com meus conhecimentos de contadora, conseguimos captar recursos de empresas, legalizar a creche, que se firmou e, pelo que sei, ainda existe, hoje assumida pela Prefeitura. A Jurema pôde trabalhar sossegada, seus filhos eram alimentados e cuidados.
Era comum, mulheres baterem a nossa porta para pedir açúcar emprestado. Motivo? Adoçar a água para seus bebês, na falta do leite.
Lá presenciamos muito sofrimento, muita luta. Vimos as águas arrastarem barracos construídos sobre o valão do esgoto. Ajudamos enterrar as vítimas. Lá organizamos mobilizações, corremos da repressão, alfabetizamos adultos, reivindicamos os médicos de famílias, que se hospedavam em nossa casa. Organizamos assistência jurídica, entre outras coisas. Meu marido presidindo a associação de moradores da vila. Nesse período da ditadura, proliferavam as associações de moradores, forma de participação então permitida pela ditadura. Conquistada, evidentemente.
Não havia PT, não havia democracia.

Filhos - E no meio de toda essa luta foram nascendo os filhos. Dez anos depois nos mudamos para o interior de Restinga Seca, no meio dos pequenos agricultores. Pegamos o período da constituição de 1988  e participamos das mobilizações pelas conquistas sociais da “Constituição Cidadã”. Lutamos pela aposentadoria da mulher da roça, pelo SUS... Na nossa comunidade, as lutas do cotidiano para viver com dignidade: transporte escolar, por exemplo, que era caótico.
Ali tivemos mais uma filha, a quarta. Não iam à escola levados e trazidos de carro particular, não tinham acesso às aulas de reforço, de idiomas, à biblioteca no turno inverso, assim como também não tinham todos os outros filhos de moradores do interior. Era preciso estar cedo na estrada esperando aquele ônibus, desconfortável, quase sempre atrasado, naquelas estradas barrentas, algumas vezes caindo nos barrancos. Nossos filhos junto e nós também. Vimos muitos desistirem, rodarem sistematicamente, terem de abandonar a escola para ajudar no plantio do fumo.
Criar os filhos dessa forma educa e sensibiliza para a compreensão social. Só isso já bastaria para que nos posicionemos a favor de iniciativas de inclusão social e de redução das desigualdades econômicas e sociais, porque não basta ser igual perante a lei, a igualdade que interessa é a das condições de vida.



Negros - Mas sabemos, e meus filhos também sabem, que ao nascermos brancos, descendentes de imigrantes europeus já nascemos com um elemento a mais no nosso “currículo” de vida que nos facilita a acessibilidade. Entendemos que herdamos também as responsabilidades pela extorsão e pelo genocídio que nossos ancestrais europeus promoveram ao invadir as terras que hoje são o Brasil, tomando-as  dos índios, matando-os, escravizando (índios e negros). Quem não estudou sobre Domingos Jorge Velho, o bandeirante que “desbravava” as matas caçando índios, trazendo amarrados homens, que iam para o trabalho escravo, mulheres que eram estupradas e depois mortas, junto com seus filhos (alguns bebês), às vezes servindo de alvo para o treinamento de tiro?
Milhares morreram (tribos inteiras) de doenças transmitidas pelos brancos europeus.
E os negros? Porque será que os analfabetos, pobres e favelados são majoritariamente negros, até hoje?
Levam-se séculos para alterar realidades sociais.
Existem incontáveis documentos, legislações arquivadas, que provam a barreira social histórica contra os negros. Eram proibidos de votar, não podiam legalmente ser proprietários de terras, mesmo que pudessem comprá-las não as podiam registrar em cartório, isso até o início do século XX. Os filhos dos negros eram proibidos de irem às escolas, mesmo as poucas escolas públicas, que foram fundadas para os brancos. Os mortos negros não podiam ser enterrados nos cemitérios dos brancos e muito menos frequentar os clubes dos brancos e isso em pleno século XX. Se acontecia algum delito a polícia suspeitava e prendia, para averiguação, sempre os negros em primeiro lugar. Nesse caso, os negros sempre ocuparam os primeiros lugares. Ainda é assim.


Cotas - Creio que a classe média tem, sim, muitos motivos para lutar: pela qualidade da educação, que requer mudanças estruturais, com muito maior investimento, lutas contra a má qualidade dos alimentos, os pesticidas que geram tantas doenças, luta contra a abusiva tabela de Imposto de Renda em relação aos ganhos decorrentes do trabalho, que deveria ter as alíquotas reduzidas e aumentadas nos ganhos de capital e especulativos: dos bancos, das especulações imobiliárias e financeiras, dos latifundiários que não pagam IR. Lutas ambientais, etc.
A Lei de cotas pode até ter equívocos, ser eleitoreira, como alguns afirmam, mas tem um profundo caráter social, de solidariedade social. Durante sua aplicação, creio, será necessário ir aparando arestas, aperfeiçoando-a, e quem sabe, em algum tempo, ser possível dizer que não é mais necessária.
Tenho lido manifestações ressentidas contra essa lei, com argumentações precárias, o que me entristece.
Não gosto de ouvir que o Brasil não é um país sério quando se trata de leis de caráter social. Pode não ser sério por outras coisas como o modo predatório de produção, de desmatamento promovido por madeireiros inescrupulosos ou por criadores de gado, pela poluição e mau uso das águas, pelo modelo econômico neo-desenvolvimentista que isenta de IPI as indústrias automobilísticas e injeta dinheiro ao BNDS para setores empresariais grandes, que continuam desempregando trabalhadores. Pelo modo com que cuidamos dos alimentos, da natureza, do trânsito.
Mas nunca porque arrisca alguns programas sociais.

Vou continuar apoiando iniciativas que tenham como objetivo reduzir desigualdades, construir mais equidade e justiça social e fico feliz que meus filhos continuem a se posicionar dessa forma e espero que melhorar de vida não os faça mudarem de lado e esquecerem suas raízes e sua responsabilidade humana e social.

sábado, 12 de maio de 2012

MATRIZ, MATRIARCA OU MÃE?

Amanhã é o dia das mães, instituído, certamente, com a intenção de ser mais uma data que o mercado aproveita para vender. Durante o processo de propaganda dos produtos, o mercado, na tentativa de agradar, vai publicizando um referencial sobre as mães. Nesses dias a maternidade é abordada de forma fetichizada e os paradigmas são, sem dúvida, os que defendem o amor incondicional, eterno, perfeito. As mães apresentadas são naturalizadas, santificadas, belas e a maioria jovem.
Fico refletindo e comparando com as realidades que conheço e constato que na vida real não é bem assim.

A maternidade  é permeada de todas as características conflituosas,que têm  os relacionamentos que a humanidade estabelece, principalmente os de cunho familiar: instituição repleta de relações altamente conflituosas. A familia, também  colocada sob uma auréola de importância fundamental e sob os belos discursos, toda a sua crise é escamoteada.
Sobre isso quero refletir:

Tem mães matrizes: geram, dão à luz, algumas até amamentam, como outras fêmeas do reino dos mamíferos e depois vão entregando suas crias para os "outros" (instituições). Terceirizam os cuidados, a educação e até o afeto é patrocinado. Não falo de abandono, falo de familias bem constituidas, mas que os cuidados, dentro da familia, com os filhos não são, via de regra, desempenhados pelas mães, mesmo quando elas poderiam fazer isso.

Tem também as matriarcas. Estas são mais que matrizes. Entendem que a maternidade lhes dá o direito de mando, de considerações especiais, de atribuições que perduram durante todo o tempo em que vivem, em relação a seus filhos; Entre as "sagradas" atribuições de mãe (matriarca) estão a de opinar sobre tudo (e impor as opiniões), querer saber tudo sobre a vida dos filhos e principalmente sobre a vida das filhas, interferir sempre, invadir a privacidade, aconselhar (ou determinar), receber "ajuda"(obrigação dos filhos e direito da mãe), ser paparicada, fazer chantagem emocional, impor sua presença, às vezes inconveniente, monitorar tudo, em nome do suposto amor materno ilimitado, "gratuito" e " sagrado". Há quem atribua à mãe poderes especiais, de premunição, de direito e capacidade divina de abençoar ou de amaldiçoar.
Exageros à parte, já vi tudo isso nas minhas andanças de militante.

Por favor, meus filhos, não me deixem ser matriarca!

E, finalmente, tem as mães (e os pais) que escolhem e decidem fazerem-se, constituirem-se mães. Assumem-se como seres mamíferos, aceitam os instintos (que são bons) e vão muito além. Optam por acolher, cuidar e assumem essa relação de cuidado e acolhimento em relação aos filhos dos outros também e no diálogo, considerando, como diz Maturana, a "legitimidade" do ser de cada um e cada uma, momento a momento da vida, com as alegrias, as contrariedades, as dificuldades, os conflitos, as diferenças, num processo constituinte de compartilhamento, de cooperação, de ir construindo as relações, com todos os envolvidos, ao ir vivendo, na verdade das emoções e das ações do dia a dia.

Nesse processo verdadeiro, ninguém precisa ser perfeito, a gente pode e deve mostrar as emoções: carinho, raiva, dor, alegria. A gente pode errar, pedir perdão, voltar atrás, no diálogo verdadeiro. Até porque não adianta querer enganar os filhos, eles nos conhecem e nos ajudam a crescer.

E eles crescem, saem, amadurecem, sofrem, erram, aprendem, às vezes somem e voltam.
Nós, mães e pais, vamos abrindo novos caminhos, autônomos em relação a eles, já sem eles por perto, mas sempre com espaço na vida (e na casa) para recebê-los, ouvi-los, ajudá-los, pedir ajuda, enfim, ir compartilhando.
Não existem obrigações mútuas e não é por obrigação que eles voltam.
Eu queria que fosse por se sentirem atraídos, seduzidos por nosso amor, nossa sabedoria, nossa comida boa, nossa alegria.

Eles sabem: na casa e no nosso coração, sempre haverá lugar para acolhe-los e junto com eles, acolher tudo e todos que trouxerem com suas vidas.
Falo no plutal, porque sou tão mãe quanto pai e o Irineu é tão pai quanto mãe, nos cuidados e no acolhimento. Por isso devia ter o dia dos cuidadores e só. Porque as diferenças entre ser pai e ser mãe, desejamos, sejam cada vez mais confusas.
Por meu lado afirmo: Ser mãe é opção e construção amorosa.



quarta-feira, 2 de maio de 2012

JÁ FUI PARTEIRA

Parir era um acontecimento natural, embora cheio de rituais -  e de práticas estranhas à nossa civilização moderna -  vividos pelas diferentes civilizações.
Foi na modernidade que o parto passou a ser função dos médicos e realizados em hospitais, como se fossem casos de doença.
Sabe-se que havia mortalidade materna, mas ainda há. O fato é que as mulheres tinham que parir por meio natural, com a ajuda das parteiras. A pergunta que a gente faz é: por que, atualmente, é tão raro partos naturais? Por que as parturientes têm tantas dificuldades de alcançarem a dilatação que possibilite o parto natural? O que mudou?

Há quem diga que a vida das mulheres é mais sedentária. Talvez!

Tudo isso me fez lembrar que na minha história de militante já fiz um parto e ele me pareceu simples, embora tenha acontecido num ambiente muito precário. Vou contar. É verídico e certamente não vou conseguir expressar toda dimensão do susto, medo e emoção que vivi naquele dia.
Eu já havia passado dos 40 anos e já tinha meus 4 filhos, todos de cezariana, infelizmente, pois eu queria muito que tivessem nascido de parto natural ou parto vaginal, como diz meu filho Pedro.

Era vereadora em Restinga Seca e havia marcado uma reunião na comunidade de São Miguel, hoje uma reconhecida comunidade quilombola.
Estávamos (eu e um grupo de moradores) sentados sob a sombra dos cinamomos, numa grande roda. Debatíamos a luta da comunidade pela conquista de água potável canalizada.
No auge da discussão de alternativas, trouxeram-me uma senhora com ataque epilético, para que eu a levasse ao hospital. Interrompi a reunião, colocamos a senhora no banco traseiro do meu velho opala branco. Quando eu tentava dar partida, no meio do alvoroço, carro rodeado de gente, de todas as idades, nova gritaria:

-"Vereadora, dona Tereza, espera!"
- "A Jussara tá com as dor, leva ela junto, o nenê vai nascer!"
Olhei para o banco do carro, a mulher se debatendo. Saio correndo até a casinha da Jussara (a parturiente). Uma procissão de gente vai atrás de mim. A jussara fala:
- "não vai dar tempo dona, o nenê está nascendo, me ajuda!"
Volto para o carro, uns me chamam de um lado, outros de outro...uma confusão!
Alguém fala: "eu fico aqui no carro. Ela vai se debater um pouco mais mas depois passa, é sempre assim".
 D.Maria, mãe da Jussara, já me puxava para dentro do rancho e a Jussara gritava:" a senhora, que é estudada, segura meu bebê"!
Na porta, nas janelas, o povo se empilhava para ver o que acontecia dentro do rancho.Pedi que se afastassem, fechei as janelas e a porta.
Pedi ajuda a duas mulheres e à mãe de Jussara.

Tem água? não tinha!
Acharam um vidro com alccol.
Tem tesoura? não tinha. Acharam uma faca.
Algodão? Gaze? Não tinha.
Encontramos uma fralda numa mala onde estavam as roupas do nenê.
As outras mulheres sairam em busca de água.
Achamos, sob um velho guarda-roupa, um plástico que colocamos na cama, sobre uma toalha, para ajudar a proteger a cama.

O rancho, escurecido pela fumaça do fogão e com as janelas fechadas, estava quase na penumbra, iluminado apenas por um lampeão a querozene.
Pedi à Jussara que ficasse de cócoras sobre a cama, amparada pela mãe.
Molhei um pedaço da fralda no alcool e passei diversas vezes na faca e num barbante de costurar saco, que a D.Maria encontrou.
A Jussara chorava, nervosa, quis deitar, examinei e vi que a cabeça do bebê começava a apontar.
Falei: faz força, respira curtinho para não perder impulso. O bebê foi surgindo, percebi que o cordão umbilical estava enrolado no pescoço do bebê. Ia precisar ajudar. Passei alcool nas duas mãos, diversas vezes e agi. Desenrosquei o pescocinho, nem sei como fiz isso, fui puxando devagar e o nenê nasceu.
Não chorou. Não cortei o umbigo, ainda.
Ajeitei o bebê sobre o meu braço, inclinei o mesmo de lado e retirei da boca muita secreção. O nenê chorou e a Jussara também. Respiramos aliviadas. Choramos as três.Eu estava com a blusa molhada de suor e do rosto da Jussara escorria suor e lágrimas.

Aí sim, medi um espaço de 5 dedos acima do umbigo, amarrei bem firme o cordão umbilical e cortei.
Coloquei o nenê sobre a mãe, parou de chorar no mesmo instante e começou a chupar os dedinhos. Coisa mais linda! Cobri os dois e ficamos todas embevecidas, na penumbra, em silêncio, olhando, curtindo aquele momento mágico. Assim, quietas, esperávamos a vinda da placenta.
D.Maria falou: "filha, sopra com força no bico dessa garrafa, que a placenta vem."
Jussara obedeceu e veio a dita cuja. Pedi às duas mulheres, que já haviam chegado com um balde de água, que enterrassem a placenta.
D.Maria e eu, com uma bacia de água, ali mesmo no quarto, fizemos a higiene na mãe e no nenê. Vestimos os dois, cuidadosamente e de forma que ficassem bem arrumados e nos preparamos para ir ao hospital.

Quando abrimos a porta do barraco, fomos recebidos com uma grande salva de palmas pelos moradores que se juntaram no pátio da casa e na estrada. Fomos rodeadas de pessoas querendo ver o bebê. Ali mesmo a Jussara anunciou que o menino iria se chamar Samuel. Alguém já saiu para telefonar para o marido da Jussara que era operário em Canoas.

E a epilética? Estava de pé, junto com as demais pessoas. Levei ambas, mais o nenê e D.Maria ao hospital.
O médico de plantão examinou, constatou que tudo estava perfeito, mas eu insisti que Jussara pernoitasse no hospital. Já eram 18 horas daquele sábado de verão.Levei a epilética de volta, pois o médico falou que ela estava bem. Deu-me os parabéns. Jussara me falou que eu seria a madrinha do Samuel, que deve ter uns 13 anos atualmente. Só a vi uma vez, quando Samuel era, ainda, bebê. Não fui a madrinha, a familia mudou-se para Canoas. Me emociono quando penso que há um Samuel por este mundo que eu ajudei a trazer à luz.




segunda-feira, 30 de abril de 2012

VOU SER AVÓ

Já era mais que hora! Finalmente, estou muito feliz! Minha primeira filha vai ser mãe, na primeira quinzena de setembro.
A notícia trouxe muita alegria e está mobilizando todos nós.
Ainda temos a vida organizada de maneira colaborativa, necessário enquanto os quatro irmãos organizam a vida: trabalho, renda, moradia, etc.
Entre a alegria depensar, fazer e organizar o enxoval e tudo o que é preciso para acolher a pessoinha que chega na familia, eu assisto e ouço preocupações que tivemos quando a Lúcia nasceu. Falo da escolha do médico, do pediatra, do hospital, das conversas em torno do parto (normal ou cezáriana) ou como diz o Pedro: cezariana ou parto vaginal, pois parto normal, atualmente, é a cezariana, o vaginal é exceção.

Antes, ainda, as preocupações com os riscos durante a gravidez, com os receios naturais sobre saúde, da mãe e do bebê, os palpites das pessoas, as sugestões, o relato das experiências das amigas e conhecidas.
Ouço minha filha manifestar o desejo de parto natural, mas ao mesmo tempo a preocupação em não colocar em risco a saúde do bebê.

Ouço os relatos sobre os médicos que não costumam nem tentar parto natural e agendam a cezária conforme as necessidades e conforto para eles próprios. O nenê é que deve  adequar-se às possibilidades da agenda dos obstetras. Alguns médicos nem querem se comprometer com atendimento de partos.
Completando o quinto mês, minha filha ainda não sabe quem vai ajudá-la a ter o bebê. E ela manifesta a mesma preocupação que eu vivi a mais de 30 anos: eu queria tanto parto natural, mas se demorasse e de alguma forma colocasse em risco a saúde do bebê, então a cesariana seria a alternativa. Foi tudo diferente do que imaginei e nas quatro gravidês, meus filhos nasceram de cesarianas.

A medicina parece não ter evoluído nesse sentido., Parece que o tempo parou. A Lúcia tem vivido os mesmos impasses que eu vivi a décadas. Há maravilhas em termos de objetos: carrinhos, mamadeiras, roupinhas, chupetas e tantas coisas que melhoraram mas o momento de nascer, ainda gera muita angústia e ansiedade nas mães.
Tenho revivido tudo isso, procurando encorajar minha filha e torcendo que esse nenê venha ao mundo ao natural, assim, como aquelas criancinhas que nascem nos táxis, porque nem dá tempo de chegar ao hospital, como aquela criança que eu ajudei a nascer em Restinga Seca, por acaso e que de tão rápido não deu tempo de levar ao hospital. Quem sabe acontece um milagre desse tipo!

 Enquanto esperamos, vamos fazendo alguns preparativos para receber a nova criaturinha que em apenas quatro meses estará entre nós e vai nos proporcionar muita ternura, muita alegria e muita poesia.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CECÍLIA LOUCA

Tantas coisas para escrever, mas preciso socializar essa lembrança que tem me perseguido.

Cecília louca foi uma personagem da minha infância e pré-adolescência. Era uma afrodescendente (como se diz hoje), cor de cuia escura, cabelo crespíssimo, característico dos negros, muito preto na raíz e com as pontas avermelhadas, do sol e da poeira e, dizem, nunca fora cortado ou teve as pontas aparadas. A cabeleira ostentava um descomunal volume e, talvez essa era a maior razão pela qual a chamavam de louca.

Mas era no cabelo que residia o mistério daquela mulher andarilha, moradora das estradas empoeiradas daquela localidade.
Por mais que se tentasse faze-la falar, jamais alguém viu seus documentos ou soube do seu sobrenome e sempre andava só.

Os moradores daquela localidade - um vilarejo rural chamado de São Gabriel, devido ao anjo padroeiro que havia na Capela da vila, hoje município de Ametista do Sul, situado entre Iraí e Frederico Westphalen - contavam muitas histórias sobre a Cecília Louca.
Os cabelos faziam parte das histórias. Diziam que ela tinha muita força e que a força vinha dos cabelos que nunca haviam sido cortados. Certamente inspiravam-se no personagem bíblico Sansão. E era essa força que fazia com que ninguém conseguisse cortar seus cabelos ou tirá-la das estradas de chão.

Cresci ouvindo que os cabelos eram, também, um grande problema, pois que serviam de esconderijo e morada de insetos e era por causa deles que ela se debatia, saia correndo, jogava-se na água...mas não os cortava.
Falavam que ela escondia nos cabelos o pouco dinheiro que conseguia, pedindo ou, diziam, roubando, embora ninguém jamais tivesse conseguido testemunhar nenhum ato ilícito da Cecília.

Muitas vezes cruzei com ela quando ia à escola ou quando ia no boteco comprar alguma encomenda de meus pais. Algumas vezes eu passei por ela em disparada, sem olhar para trás, de medo. Outras vezes me embrenhei nas trilhas pelo meio do potreiro ou das capoeiras, para evitar encontrá-la.
Um belo dia, numa dessas cruzadas, ela me chamou pelo nome.
Que susto! Como ela sabe o meu nome?

_ Terezinha, vem cá, não tenha medo!

Parei e olhei e daqueles lábios grossos brotou um sorriso escuro, semi-desdentado.
Cheguei perto, de mansinho, ela parou e me olhou com um olhar manso e eu vi de perto a cabeleira, os olhos grandes e muito escuros, a boca bem torneada. O medo passou e eu até achei ela menos feia. E concluí que ela tinha uma certa beleza.

Ela falou: _ Não precisa ter medo de mim, também sou gente!

E foi só. Saiu caminhando com o mesmo passo de andarilha. Em poucos minutos sumiu de minha vista.

Era uma mulher de estatura média, roupas surradas, um tamanco nos pés, usava vestido, mangas compridas, decote em vê, busto grande. Avalio, com a lembrança que tenho hoje, que ela deveria ter uns 35 anos. Falava pouco, só o necessário para pedir alimento e água.
Eu a vi outras vezes e uma ocasião a vi grávida, quando chegou em nossa casa e pediu água. Tomou a água sentada na grama do jardim, sem pressa e sem falar, com uma das mãos apoiadas na enorme barriga.
Passou uns tempos sumida e voltou sem barriga e sem o filho. Dizem que teve vários e que sempre doava e voltava a andar.

Ninguém sabia onde ela dormia. Não levava nada com ela. Nunca a vi com sacola ou algo parecido. Sumia e aparecia de repente. Esse mistério me atemorizava e me encantava.

Passei alguns anos fora da localidade, no colégio de freiras em Iraí. Voltei adolescente.
Em uma dessas voltas, de férias, eu, minha irmã e algumas colegas, a vimos novamente caminhando pelas estradas. O cabelo ainda maior, muito empoeirada e resolvemos fazer " um bem" à Cecília.
Estava decidido, iríamos enfrentar nossos medos e juntas iríamos cortar-lhe a imensa cabeleira, faze-la tomar banho e dar-lhe roupas novas e limpas.
Pensávamos conversar com ela, mas se ela não concordasse, nós a pegaríamos a força para a faxina.

Nos preparamos, observamos seus trajetos e um dia, tesoura na sacola, pegamos a estrada.
Andamos muito e a encontramos. Ela, parece ter adivinhado nossa intenção, não deixou nem que nos aproximássemos. Quanto mais a gente apertava o passo, mais ela andava e nos fazia de bobas. Ela se divertiu às nossas custas. Cansamos e desistimos.
Olhei para trás e a vi rindo. Foi a última vez que a vi.

Lembro-me de nosso pai ter dito, ao ouvir sobre nossa tentativa:
_Deixem a Cecília, ela gosta de viver assim. Não incomodem mais a pobre mulher!

Agora, passadas tantas décadas, eu me lembro seguido daquele episódio e fico pensando na nossa arrogância de adolescentes e no desrespeito também.
Hoje, quando penso na Cecília Louca, e penso seguidamente, eu me lembro da música "Geni" cantada por Chico Buarque e uma palavra me vem para definir as duas: generosidade.

A Geni, do Chico, significa uma homenagem às milhares de Cecílias Loucas que andam pelo mundo, sem que ninguém saiba quem são, de onde vieram. Vivem com tão pouco, doando o próprio corpo. Deixam filhos pelo mundo e deixam lembranças. Se aquela Cecília era louca? Hoje avalio que não. Ela era mansa, paciente e misteriosa.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Uma história pessoal sobre ÁGUA

A água, sem dúvida, é fonte de vida e motivo de conflitos.
Começo essa história contando um episódio no qual estou pessoalmente envolvida.

Tenho procuração para representar a proprietária de um apartamento pertencente ao condomínio de um prédio novo, num bairro central de Santa Maria. A proprietária é minha filha e o partamento é de uso familiar.

Um dia destes fomos procurados, pelo síndico do prédio, para que assinássemos um termo de adesão à construção, no prédio, de um poço artesiano.
A assinatura de cada responsável de todos os apartamentos fazia-se necessária, de acordo com o síndico, para garantir que a construção fosse "sigilosa".

Tratei de me informar com representante do Conselho Fiscal do Condomínio sobre as efetivas razões das assinaturas e, entre todos os argumentos favoráveis à abertura do poço, estaria o de que, somente os moradores do nosso apartamento não estariam assinando o documento, pois que todos os outros já haviam aderido ao Termo e concordado com a abertura do tal poço.

Constatei também, que as assinaturas significariam o compromisso de bancar financeiramente os custos do poço, mas mais do que isso, de garantir o caráter "sigiloso", pois que assim nenhum morador informaria aos órgãos competentes sobre tal obra.
O termo sigiloso, nesse caso, significa clandestino, porque, de acordo com a proposta do síndico e adesão dos moradores, o poço seria construído sem a OUTORGA ( autorização) dos órgãos competentes.

Recusamo-nos a assinar, após nos informarmos sobre os aspectos legais de tal empreendimento.
Sintetizando as questões legais:

Para fazer o tal poço, o projeto e a outorga, devem ser aprovados pelo Departamento de Recursos Hídricos da Secretaria de Meio Ambiente do Estado. Mas a secretaria aprova desde que o projeto esteja enquadrado nos critérios legais e entre eles e o mais fundamental de todos: não haver acesso ao serviço de abastecimento por rede pública de água potável.

Obviamente que um prédio urbano, central e recente, nem teria o habite-se sem acesso à água potável. Logo, o poço só poderia ser construído de forma clandestina e, portanto, correndo o risco de ser fechado e o condomínio todo penalizado por multas e sansões previstas em Lei, além de perder o investimento realizado.

Mas então, qual a razão para construir esse poço?
Faltas frequentes de água? Não, raramente ha interrupção quando, acidentalmente, rompe-se algum cano.
A razão alegada é que a água da Corsan é muito cara.
Ora, a média dos gastos com água no prédio é em torno de 100,00. Pela relevância da água e pelo nível de gastos e de renda dos moradores do prédio, é um gasto irrisório.
Temos água, potável, de boa qualidade.

Mas será que nós somos intolerantes? Afinal o que diz a legislação?
A Lei das Águas de nº 9.433 de 8/1/97 instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos e criou o Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos.
Objetivo da Lei (que foi fruto de mobilizações populares): "assegurar à atual e às futuras gerações, a disponibilidade de água em padrões de qualidade adequados".

O art. 1º da Lei reza que a Política Nacional de Recursos Hídricos baseia-se nos seguintes fundamentos:
I- A água é um bem de domínio público (comum);
II- A água é um bem natural limitado, dotado de valor econômico;
III- Em situação de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o Consumo humano e dessedentação de animais.
VI- A gestão de recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades. ( Por isso a existência dos Comitês de Bacias Hidrográficas).

Importante ressaltar, ainda, que a Resolução nº 60 de 16/7/2009 do Departamento de Recursos Hídricos do Estado, ouvidos os Comitês representantes das comunidades, deixa claro que não poderá haver outorga para abertura de poços artesianos onde houver abastecimento por rede pública de água potável e estabelece algumas excessões, das quais nosso prédio nem de longe se enquadra.
Cabe ressaltar que a legislação prevê pesadas multas para as infrações que vão de 100,00 a 10.000,00, ao dia, conforme a infração.

Diante disso tudo, de forma responsável e solidária com a nossa e com as futuras gerações, nos recusamos a assinar a lista de adesão para construção CLANDESTINA de um poço artesiano no prédio e também por entender que estaríamos nos apropriando de forma corrompida do que é comum à humanidade, sabotando a gestão das águas e contribuindo para esgotar o lençol freático e com o único objetivo de economizar dinheiro e não de economizar ÁGUA.

Se o Condomínio decidisse investir em estruturas de captação de água da chuva e reaproveitamento da água utilizada ou em instalação para captar energia solar, estaríamos dentro e certamente assinaríamos termos de adesão, nos comprometendo em investir e pagar para economizar RECURSOS HÍDRICOS.

É lamentável constatar que tal proposta, com 99% de adesão, vem de pessoas de nível universitário, com ótima situação financeira, todas com excelente qualidade de vida, com acesso às informações e conhecedoras da Lei, muitas desempenhando cargos públicos dirigentes, algumas com atividades empresariais, de veículos de comunicação e "formadores de opinião". Lamentável, também, ter ouvido de algumas dessas pessoas, que existem muitos prédios em S.Maria fazendo poços clandestinos. Os órgãos fiscalizadores precisam ver isso. Água é fundamental à vida e ninguém deve se apropriar indevidamente do que é de todos.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Aniversário de minha mãe

Dia 13 de dezembro de 1925, nascia Maria Lúcia Bonelli Lovatto, no interior de Cachoeira do Sul (Estiva). Hoje completa 86 anos.
Filha de descendentes diretos de imigrantes italianos. Sua mãe, Vitória Bonelli nasceu em um dos navios que trouxeram imigrantes da Itália, em plena travessia do Oceano Atlântico.
Seus pais, sem terras próprias, chegaram a tornar-se empresários de arroz, plantando em terras arrendadas. Foram bem sucedidos, plantando nas margens do rio Jacuí. Viveram períodos de fartura. Produziam com o que havia de mais moderno, na época. Chegaram a ter dezenas de empregados.

De acordo com os relatos de minha mãe, meu avô Joanin Lovatto mandou vir um bom professor de Santa Maria para dar aulas às filhas ( o filho estudava em S.Maria) e aos empregados. Foi assim que elas e os empregados se alfabetizaram a aprenderam conteúdos históricos e geográficos, bem como alguns cálculos matemáticos, aplicáveis às necessidades da vida.

Com a crise de 1929, que afetou o Brasil durante décadas, a empresa do "nono" quebrou.
Minha mãe, já casada com meu pai Delmiro Copetti, também sem terras ou patrimônio, teve oito filhos e ambos trabalharam muito. Juntaram um razoável patrimônio que também foi dilapidado por outra crise: o galopante procresso inflacionário que durou décadas e que se tornou nosso conhecido, fantasma que continua a nos assustar.

Mas, apesar das dificuldades, criaram os oito filhos e todos estudaram, se formaram e estão bem. Claro, que os mais velhos, trabalhando e estudando e ajudando a sustentar os mais novos.
No entanto, é preciso ressaltar os méritos de nossa mãe, que nos empurrou para a vida, nos ensinou a trabalhar e nos forçou a estudar.

Neste dia, quero homenageá-la, lembrando a força e a potência de vida desta mulher silenciosa, de poucas palavras, de poucos sorrisos, tímida, mas que fez um grande trabalho.
Tinha muita sabedoria.
Criou os filhos numa época difícil e é pertinente lembrar que foi com muito poucos recursos e conforto.
Não havia água encanada (tinha que puxar água de poço), lavar roupa na fonte, porque,obviamente, não havia máquina de lavar roupas, nem geladeira, nem fogão a gás.
Nem era possível sair às compras pois lá, no meio rural, não tinha mercado, mercearia, açougue, padaria. Pão ela os fez a vida toda, em forno de tijolo e barro. A carne era de galinhas, porcos, cabritos, criados na propriedade. Frutas, verduras, legumes., feijão, milho, etc. também eram produzidos nas roças caseiras, fruto do trabalho, principalmente da mãe, com a ajuda dos filhos mais velhos, que iam crescendo e ajudando.
O leite, o queijo também eram produzidos em casa.

As roupas, os acolchoados, ela fazia, todas, inclusive as bombachas do pai.
E é bom lembrar, não havia fraldas descartáveis, e nem posto de saúde, SAMÚ, etc. Ela tinha um livro: O Conselheiro Médico do Lar, que orientava sobre os sintomas das doenças e viroses e tinha os conselhos sobre o que fazer: chás, compressas, pomadas, charopes, hidroterapia.

Nos criamos num lugar denominado São Gabriel, hoje município de Ametista do Sul.
Nosso pai serrou as táboas e fez a nossa casa. Ele montou um engenho de serra e depois serrou a madeira para as casas da maioria dos moradores do lugar, naquela época. Isso, aproximadamente lá pelos anos 1955.
Foi a primeira casa com assoalho.
Lembro-me da admiração de uma visinha quando a mãe mostrou-lhe os talheres inoxidáveis que o pai havia trazido de São Paulo, onde viajava para vender madeira.

Nossa casa era toda de madeira, com áreas de ripinhas, bem pintadinha, bem bonita, com jardim e roseiras. Minha mãe era muito caprichosa. Lembro dos vestidinhos que ela nos fazia, bem bonitos e das camisas e calças de meus irmãos. Sempre bem limpos e bonitos.

Houve um tempo em que não havia escola e a mãe alfabetizou e ensinou os primeiros cálculos para os quatro irmãos mais velhos, inclusive para mim.
Também foi nossa catequista. Ela sempre gostou de ler e tinha uma letra muito bonita.
Também nos ensinou a cozinhar, lavar, passar, cuidar da casa, bordar e até um pouco de costura.

Quando a crise começou a apertar, ela foi a primeira a ir abrindo mão de nossa presença e de nossa ajuda para que ganhássemos o mundo em busca do estudo. Não nos deram tudo não, tivemos de trabalhar muito, mas nos viramos e estudamos.
Obrigada mãe, teus cuidados e tua confiança em nós nos fez crescer.

Como ela está durando tanto?
Bom isso é até cômico: me criei achando que a mãe era bem doente, ela se cuidava muito e quando começou a ser possível, ela buscou médicos e todos os recursos disponíveis para se renovar e "se curar" das hipotéticas doenças. Mora comigo a mais de 20 anos e descobri que ela não tem doença nenhuma e vai longe, ainda lúcida.
Sempre que posso tento conversar com ela e aos poucos ela me conta coisas que desconheço.
É uma matriarca forte e uma vencedora, embora não se dê conta disso.