sábado, 12 de maio de 2012

MATRIZ, MATRIARCA OU MÃE?

Amanhã é o dia das mães, instituído, certamente, com a intenção de ser mais uma data que o mercado aproveita para vender. Durante o processo de propaganda dos produtos, o mercado, na tentativa de agradar, vai publicizando um referencial sobre as mães. Nesses dias a maternidade é abordada de forma fetichizada e os paradigmas são, sem dúvida, os que defendem o amor incondicional, eterno, perfeito. As mães apresentadas são naturalizadas, santificadas, belas e a maioria jovem.
Fico refletindo e comparando com as realidades que conheço e constato que na vida real não é bem assim.

A maternidade  é permeada de todas as características conflituosas,que têm  os relacionamentos que a humanidade estabelece, principalmente os de cunho familiar: instituição repleta de relações altamente conflituosas. A familia, também  colocada sob uma auréola de importância fundamental e sob os belos discursos, toda a sua crise é escamoteada.
Sobre isso quero refletir:

Tem mães matrizes: geram, dão à luz, algumas até amamentam, como outras fêmeas do reino dos mamíferos e depois vão entregando suas crias para os "outros" (instituições). Terceirizam os cuidados, a educação e até o afeto é patrocinado. Não falo de abandono, falo de familias bem constituidas, mas que os cuidados, dentro da familia, com os filhos não são, via de regra, desempenhados pelas mães, mesmo quando elas poderiam fazer isso.

Tem também as matriarcas. Estas são mais que matrizes. Entendem que a maternidade lhes dá o direito de mando, de considerações especiais, de atribuições que perduram durante todo o tempo em que vivem, em relação a seus filhos; Entre as "sagradas" atribuições de mãe (matriarca) estão a de opinar sobre tudo (e impor as opiniões), querer saber tudo sobre a vida dos filhos e principalmente sobre a vida das filhas, interferir sempre, invadir a privacidade, aconselhar (ou determinar), receber "ajuda"(obrigação dos filhos e direito da mãe), ser paparicada, fazer chantagem emocional, impor sua presença, às vezes inconveniente, monitorar tudo, em nome do suposto amor materno ilimitado, "gratuito" e " sagrado". Há quem atribua à mãe poderes especiais, de premunição, de direito e capacidade divina de abençoar ou de amaldiçoar.
Exageros à parte, já vi tudo isso nas minhas andanças de militante.

Por favor, meus filhos, não me deixem ser matriarca!

E, finalmente, tem as mães (e os pais) que escolhem e decidem fazerem-se, constituirem-se mães. Assumem-se como seres mamíferos, aceitam os instintos (que são bons) e vão muito além. Optam por acolher, cuidar e assumem essa relação de cuidado e acolhimento em relação aos filhos dos outros também e no diálogo, considerando, como diz Maturana, a "legitimidade" do ser de cada um e cada uma, momento a momento da vida, com as alegrias, as contrariedades, as dificuldades, os conflitos, as diferenças, num processo constituinte de compartilhamento, de cooperação, de ir construindo as relações, com todos os envolvidos, ao ir vivendo, na verdade das emoções e das ações do dia a dia.

Nesse processo verdadeiro, ninguém precisa ser perfeito, a gente pode e deve mostrar as emoções: carinho, raiva, dor, alegria. A gente pode errar, pedir perdão, voltar atrás, no diálogo verdadeiro. Até porque não adianta querer enganar os filhos, eles nos conhecem e nos ajudam a crescer.

E eles crescem, saem, amadurecem, sofrem, erram, aprendem, às vezes somem e voltam.
Nós, mães e pais, vamos abrindo novos caminhos, autônomos em relação a eles, já sem eles por perto, mas sempre com espaço na vida (e na casa) para recebê-los, ouvi-los, ajudá-los, pedir ajuda, enfim, ir compartilhando.
Não existem obrigações mútuas e não é por obrigação que eles voltam.
Eu queria que fosse por se sentirem atraídos, seduzidos por nosso amor, nossa sabedoria, nossa comida boa, nossa alegria.

Eles sabem: na casa e no nosso coração, sempre haverá lugar para acolhe-los e junto com eles, acolher tudo e todos que trouxerem com suas vidas.
Falo no plutal, porque sou tão mãe quanto pai e o Irineu é tão pai quanto mãe, nos cuidados e no acolhimento. Por isso devia ter o dia dos cuidadores e só. Porque as diferenças entre ser pai e ser mãe, desejamos, sejam cada vez mais confusas.
Por meu lado afirmo: Ser mãe é opção e construção amorosa.



quarta-feira, 2 de maio de 2012

JÁ FUI PARTEIRA

Parir era um acontecimento natural, embora cheio de rituais -  e de práticas estranhas à nossa civilização moderna -  vividos pelas diferentes civilizações.
Foi na modernidade que o parto passou a ser função dos médicos e realizados em hospitais, como se fossem casos de doença.
Sabe-se que havia mortalidade materna, mas ainda há. O fato é que as mulheres tinham que parir por meio natural, com a ajuda das parteiras. A pergunta que a gente faz é: por que, atualmente, é tão raro partos naturais? Por que as parturientes têm tantas dificuldades de alcançarem a dilatação que possibilite o parto natural? O que mudou?

Há quem diga que a vida das mulheres é mais sedentária. Talvez!

Tudo isso me fez lembrar que na minha história de militante já fiz um parto e ele me pareceu simples, embora tenha acontecido num ambiente muito precário. Vou contar. É verídico e certamente não vou conseguir expressar toda dimensão do susto, medo e emoção que vivi naquele dia.
Eu já havia passado dos 40 anos e já tinha meus 4 filhos, todos de cezariana, infelizmente, pois eu queria muito que tivessem nascido de parto natural ou parto vaginal, como diz meu filho Pedro.

Era vereadora em Restinga Seca e havia marcado uma reunião na comunidade de São Miguel, hoje uma reconhecida comunidade quilombola.
Estávamos (eu e um grupo de moradores) sentados sob a sombra dos cinamomos, numa grande roda. Debatíamos a luta da comunidade pela conquista de água potável canalizada.
No auge da discussão de alternativas, trouxeram-me uma senhora com ataque epilético, para que eu a levasse ao hospital. Interrompi a reunião, colocamos a senhora no banco traseiro do meu velho opala branco. Quando eu tentava dar partida, no meio do alvoroço, carro rodeado de gente, de todas as idades, nova gritaria:

-"Vereadora, dona Tereza, espera!"
- "A Jussara tá com as dor, leva ela junto, o nenê vai nascer!"
Olhei para o banco do carro, a mulher se debatendo. Saio correndo até a casinha da Jussara (a parturiente). Uma procissão de gente vai atrás de mim. A jussara fala:
- "não vai dar tempo dona, o nenê está nascendo, me ajuda!"
Volto para o carro, uns me chamam de um lado, outros de outro...uma confusão!
Alguém fala: "eu fico aqui no carro. Ela vai se debater um pouco mais mas depois passa, é sempre assim".
 D.Maria, mãe da Jussara, já me puxava para dentro do rancho e a Jussara gritava:" a senhora, que é estudada, segura meu bebê"!
Na porta, nas janelas, o povo se empilhava para ver o que acontecia dentro do rancho.Pedi que se afastassem, fechei as janelas e a porta.
Pedi ajuda a duas mulheres e à mãe de Jussara.

Tem água? não tinha!
Acharam um vidro com alccol.
Tem tesoura? não tinha. Acharam uma faca.
Algodão? Gaze? Não tinha.
Encontramos uma fralda numa mala onde estavam as roupas do nenê.
As outras mulheres sairam em busca de água.
Achamos, sob um velho guarda-roupa, um plástico que colocamos na cama, sobre uma toalha, para ajudar a proteger a cama.

O rancho, escurecido pela fumaça do fogão e com as janelas fechadas, estava quase na penumbra, iluminado apenas por um lampeão a querozene.
Pedi à Jussara que ficasse de cócoras sobre a cama, amparada pela mãe.
Molhei um pedaço da fralda no alcool e passei diversas vezes na faca e num barbante de costurar saco, que a D.Maria encontrou.
A Jussara chorava, nervosa, quis deitar, examinei e vi que a cabeça do bebê começava a apontar.
Falei: faz força, respira curtinho para não perder impulso. O bebê foi surgindo, percebi que o cordão umbilical estava enrolado no pescoço do bebê. Ia precisar ajudar. Passei alcool nas duas mãos, diversas vezes e agi. Desenrosquei o pescocinho, nem sei como fiz isso, fui puxando devagar e o nenê nasceu.
Não chorou. Não cortei o umbigo, ainda.
Ajeitei o bebê sobre o meu braço, inclinei o mesmo de lado e retirei da boca muita secreção. O nenê chorou e a Jussara também. Respiramos aliviadas. Choramos as três.Eu estava com a blusa molhada de suor e do rosto da Jussara escorria suor e lágrimas.

Aí sim, medi um espaço de 5 dedos acima do umbigo, amarrei bem firme o cordão umbilical e cortei.
Coloquei o nenê sobre a mãe, parou de chorar no mesmo instante e começou a chupar os dedinhos. Coisa mais linda! Cobri os dois e ficamos todas embevecidas, na penumbra, em silêncio, olhando, curtindo aquele momento mágico. Assim, quietas, esperávamos a vinda da placenta.
D.Maria falou: "filha, sopra com força no bico dessa garrafa, que a placenta vem."
Jussara obedeceu e veio a dita cuja. Pedi às duas mulheres, que já haviam chegado com um balde de água, que enterrassem a placenta.
D.Maria e eu, com uma bacia de água, ali mesmo no quarto, fizemos a higiene na mãe e no nenê. Vestimos os dois, cuidadosamente e de forma que ficassem bem arrumados e nos preparamos para ir ao hospital.

Quando abrimos a porta do barraco, fomos recebidos com uma grande salva de palmas pelos moradores que se juntaram no pátio da casa e na estrada. Fomos rodeadas de pessoas querendo ver o bebê. Ali mesmo a Jussara anunciou que o menino iria se chamar Samuel. Alguém já saiu para telefonar para o marido da Jussara que era operário em Canoas.

E a epilética? Estava de pé, junto com as demais pessoas. Levei ambas, mais o nenê e D.Maria ao hospital.
O médico de plantão examinou, constatou que tudo estava perfeito, mas eu insisti que Jussara pernoitasse no hospital. Já eram 18 horas daquele sábado de verão.Levei a epilética de volta, pois o médico falou que ela estava bem. Deu-me os parabéns. Jussara me falou que eu seria a madrinha do Samuel, que deve ter uns 13 anos atualmente. Só a vi uma vez, quando Samuel era, ainda, bebê. Não fui a madrinha, a familia mudou-se para Canoas. Me emociono quando penso que há um Samuel por este mundo que eu ajudei a trazer à luz.




segunda-feira, 30 de abril de 2012

VOU SER AVÓ

Já era mais que hora! Finalmente, estou muito feliz! Minha primeira filha vai ser mãe, na primeira quinzena de setembro.
A notícia trouxe muita alegria e está mobilizando todos nós.
Ainda temos a vida organizada de maneira colaborativa, necessário enquanto os quatro irmãos organizam a vida: trabalho, renda, moradia, etc.
Entre a alegria depensar, fazer e organizar o enxoval e tudo o que é preciso para acolher a pessoinha que chega na familia, eu assisto e ouço preocupações que tivemos quando a Lúcia nasceu. Falo da escolha do médico, do pediatra, do hospital, das conversas em torno do parto (normal ou cezáriana) ou como diz o Pedro: cezariana ou parto vaginal, pois parto normal, atualmente, é a cezariana, o vaginal é exceção.

Antes, ainda, as preocupações com os riscos durante a gravidez, com os receios naturais sobre saúde, da mãe e do bebê, os palpites das pessoas, as sugestões, o relato das experiências das amigas e conhecidas.
Ouço minha filha manifestar o desejo de parto natural, mas ao mesmo tempo a preocupação em não colocar em risco a saúde do bebê.

Ouço os relatos sobre os médicos que não costumam nem tentar parto natural e agendam a cezária conforme as necessidades e conforto para eles próprios. O nenê é que deve  adequar-se às possibilidades da agenda dos obstetras. Alguns médicos nem querem se comprometer com atendimento de partos.
Completando o quinto mês, minha filha ainda não sabe quem vai ajudá-la a ter o bebê. E ela manifesta a mesma preocupação que eu vivi a mais de 30 anos: eu queria tanto parto natural, mas se demorasse e de alguma forma colocasse em risco a saúde do bebê, então a cesariana seria a alternativa. Foi tudo diferente do que imaginei e nas quatro gravidês, meus filhos nasceram de cesarianas.

A medicina parece não ter evoluído nesse sentido., Parece que o tempo parou. A Lúcia tem vivido os mesmos impasses que eu vivi a décadas. Há maravilhas em termos de objetos: carrinhos, mamadeiras, roupinhas, chupetas e tantas coisas que melhoraram mas o momento de nascer, ainda gera muita angústia e ansiedade nas mães.
Tenho revivido tudo isso, procurando encorajar minha filha e torcendo que esse nenê venha ao mundo ao natural, assim, como aquelas criancinhas que nascem nos táxis, porque nem dá tempo de chegar ao hospital, como aquela criança que eu ajudei a nascer em Restinga Seca, por acaso e que de tão rápido não deu tempo de levar ao hospital. Quem sabe acontece um milagre desse tipo!

 Enquanto esperamos, vamos fazendo alguns preparativos para receber a nova criaturinha que em apenas quatro meses estará entre nós e vai nos proporcionar muita ternura, muita alegria e muita poesia.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CECÍLIA LOUCA

Tantas coisas para escrever, mas preciso socializar essa lembrança que tem me perseguido.

Cecília louca foi uma personagem da minha infância e pré-adolescência. Era uma afrodescendente (como se diz hoje), cor de cuia escura, cabelo crespíssimo, característico dos negros, muito preto na raíz e com as pontas avermelhadas, do sol e da poeira e, dizem, nunca fora cortado ou teve as pontas aparadas. A cabeleira ostentava um descomunal volume e, talvez essa era a maior razão pela qual a chamavam de louca.

Mas era no cabelo que residia o mistério daquela mulher andarilha, moradora das estradas empoeiradas daquela localidade.
Por mais que se tentasse faze-la falar, jamais alguém viu seus documentos ou soube do seu sobrenome e sempre andava só.

Os moradores daquela localidade - um vilarejo rural chamado de São Gabriel, devido ao anjo padroeiro que havia na Capela da vila, hoje município de Ametista do Sul, situado entre Iraí e Frederico Westphalen - contavam muitas histórias sobre a Cecília Louca.
Os cabelos faziam parte das histórias. Diziam que ela tinha muita força e que a força vinha dos cabelos que nunca haviam sido cortados. Certamente inspiravam-se no personagem bíblico Sansão. E era essa força que fazia com que ninguém conseguisse cortar seus cabelos ou tirá-la das estradas de chão.

Cresci ouvindo que os cabelos eram, também, um grande problema, pois que serviam de esconderijo e morada de insetos e era por causa deles que ela se debatia, saia correndo, jogava-se na água...mas não os cortava.
Falavam que ela escondia nos cabelos o pouco dinheiro que conseguia, pedindo ou, diziam, roubando, embora ninguém jamais tivesse conseguido testemunhar nenhum ato ilícito da Cecília.

Muitas vezes cruzei com ela quando ia à escola ou quando ia no boteco comprar alguma encomenda de meus pais. Algumas vezes eu passei por ela em disparada, sem olhar para trás, de medo. Outras vezes me embrenhei nas trilhas pelo meio do potreiro ou das capoeiras, para evitar encontrá-la.
Um belo dia, numa dessas cruzadas, ela me chamou pelo nome.
Que susto! Como ela sabe o meu nome?

_ Terezinha, vem cá, não tenha medo!

Parei e olhei e daqueles lábios grossos brotou um sorriso escuro, semi-desdentado.
Cheguei perto, de mansinho, ela parou e me olhou com um olhar manso e eu vi de perto a cabeleira, os olhos grandes e muito escuros, a boca bem torneada. O medo passou e eu até achei ela menos feia. E concluí que ela tinha uma certa beleza.

Ela falou: _ Não precisa ter medo de mim, também sou gente!

E foi só. Saiu caminhando com o mesmo passo de andarilha. Em poucos minutos sumiu de minha vista.

Era uma mulher de estatura média, roupas surradas, um tamanco nos pés, usava vestido, mangas compridas, decote em vê, busto grande. Avalio, com a lembrança que tenho hoje, que ela deveria ter uns 35 anos. Falava pouco, só o necessário para pedir alimento e água.
Eu a vi outras vezes e uma ocasião a vi grávida, quando chegou em nossa casa e pediu água. Tomou a água sentada na grama do jardim, sem pressa e sem falar, com uma das mãos apoiadas na enorme barriga.
Passou uns tempos sumida e voltou sem barriga e sem o filho. Dizem que teve vários e que sempre doava e voltava a andar.

Ninguém sabia onde ela dormia. Não levava nada com ela. Nunca a vi com sacola ou algo parecido. Sumia e aparecia de repente. Esse mistério me atemorizava e me encantava.

Passei alguns anos fora da localidade, no colégio de freiras em Iraí. Voltei adolescente.
Em uma dessas voltas, de férias, eu, minha irmã e algumas colegas, a vimos novamente caminhando pelas estradas. O cabelo ainda maior, muito empoeirada e resolvemos fazer " um bem" à Cecília.
Estava decidido, iríamos enfrentar nossos medos e juntas iríamos cortar-lhe a imensa cabeleira, faze-la tomar banho e dar-lhe roupas novas e limpas.
Pensávamos conversar com ela, mas se ela não concordasse, nós a pegaríamos a força para a faxina.

Nos preparamos, observamos seus trajetos e um dia, tesoura na sacola, pegamos a estrada.
Andamos muito e a encontramos. Ela, parece ter adivinhado nossa intenção, não deixou nem que nos aproximássemos. Quanto mais a gente apertava o passo, mais ela andava e nos fazia de bobas. Ela se divertiu às nossas custas. Cansamos e desistimos.
Olhei para trás e a vi rindo. Foi a última vez que a vi.

Lembro-me de nosso pai ter dito, ao ouvir sobre nossa tentativa:
_Deixem a Cecília, ela gosta de viver assim. Não incomodem mais a pobre mulher!

Agora, passadas tantas décadas, eu me lembro seguido daquele episódio e fico pensando na nossa arrogância de adolescentes e no desrespeito também.
Hoje, quando penso na Cecília Louca, e penso seguidamente, eu me lembro da música "Geni" cantada por Chico Buarque e uma palavra me vem para definir as duas: generosidade.

A Geni, do Chico, significa uma homenagem às milhares de Cecílias Loucas que andam pelo mundo, sem que ninguém saiba quem são, de onde vieram. Vivem com tão pouco, doando o próprio corpo. Deixam filhos pelo mundo e deixam lembranças. Se aquela Cecília era louca? Hoje avalio que não. Ela era mansa, paciente e misteriosa.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Uma história pessoal sobre ÁGUA

A água, sem dúvida, é fonte de vida e motivo de conflitos.
Começo essa história contando um episódio no qual estou pessoalmente envolvida.

Tenho procuração para representar a proprietária de um apartamento pertencente ao condomínio de um prédio novo, num bairro central de Santa Maria. A proprietária é minha filha e o partamento é de uso familiar.

Um dia destes fomos procurados, pelo síndico do prédio, para que assinássemos um termo de adesão à construção, no prédio, de um poço artesiano.
A assinatura de cada responsável de todos os apartamentos fazia-se necessária, de acordo com o síndico, para garantir que a construção fosse "sigilosa".

Tratei de me informar com representante do Conselho Fiscal do Condomínio sobre as efetivas razões das assinaturas e, entre todos os argumentos favoráveis à abertura do poço, estaria o de que, somente os moradores do nosso apartamento não estariam assinando o documento, pois que todos os outros já haviam aderido ao Termo e concordado com a abertura do tal poço.

Constatei também, que as assinaturas significariam o compromisso de bancar financeiramente os custos do poço, mas mais do que isso, de garantir o caráter "sigiloso", pois que assim nenhum morador informaria aos órgãos competentes sobre tal obra.
O termo sigiloso, nesse caso, significa clandestino, porque, de acordo com a proposta do síndico e adesão dos moradores, o poço seria construído sem a OUTORGA ( autorização) dos órgãos competentes.

Recusamo-nos a assinar, após nos informarmos sobre os aspectos legais de tal empreendimento.
Sintetizando as questões legais:

Para fazer o tal poço, o projeto e a outorga, devem ser aprovados pelo Departamento de Recursos Hídricos da Secretaria de Meio Ambiente do Estado. Mas a secretaria aprova desde que o projeto esteja enquadrado nos critérios legais e entre eles e o mais fundamental de todos: não haver acesso ao serviço de abastecimento por rede pública de água potável.

Obviamente que um prédio urbano, central e recente, nem teria o habite-se sem acesso à água potável. Logo, o poço só poderia ser construído de forma clandestina e, portanto, correndo o risco de ser fechado e o condomínio todo penalizado por multas e sansões previstas em Lei, além de perder o investimento realizado.

Mas então, qual a razão para construir esse poço?
Faltas frequentes de água? Não, raramente ha interrupção quando, acidentalmente, rompe-se algum cano.
A razão alegada é que a água da Corsan é muito cara.
Ora, a média dos gastos com água no prédio é em torno de 100,00. Pela relevância da água e pelo nível de gastos e de renda dos moradores do prédio, é um gasto irrisório.
Temos água, potável, de boa qualidade.

Mas será que nós somos intolerantes? Afinal o que diz a legislação?
A Lei das Águas de nº 9.433 de 8/1/97 instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos e criou o Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos.
Objetivo da Lei (que foi fruto de mobilizações populares): "assegurar à atual e às futuras gerações, a disponibilidade de água em padrões de qualidade adequados".

O art. 1º da Lei reza que a Política Nacional de Recursos Hídricos baseia-se nos seguintes fundamentos:
I- A água é um bem de domínio público (comum);
II- A água é um bem natural limitado, dotado de valor econômico;
III- Em situação de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o Consumo humano e dessedentação de animais.
VI- A gestão de recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades. ( Por isso a existência dos Comitês de Bacias Hidrográficas).

Importante ressaltar, ainda, que a Resolução nº 60 de 16/7/2009 do Departamento de Recursos Hídricos do Estado, ouvidos os Comitês representantes das comunidades, deixa claro que não poderá haver outorga para abertura de poços artesianos onde houver abastecimento por rede pública de água potável e estabelece algumas excessões, das quais nosso prédio nem de longe se enquadra.
Cabe ressaltar que a legislação prevê pesadas multas para as infrações que vão de 100,00 a 10.000,00, ao dia, conforme a infração.

Diante disso tudo, de forma responsável e solidária com a nossa e com as futuras gerações, nos recusamos a assinar a lista de adesão para construção CLANDESTINA de um poço artesiano no prédio e também por entender que estaríamos nos apropriando de forma corrompida do que é comum à humanidade, sabotando a gestão das águas e contribuindo para esgotar o lençol freático e com o único objetivo de economizar dinheiro e não de economizar ÁGUA.

Se o Condomínio decidisse investir em estruturas de captação de água da chuva e reaproveitamento da água utilizada ou em instalação para captar energia solar, estaríamos dentro e certamente assinaríamos termos de adesão, nos comprometendo em investir e pagar para economizar RECURSOS HÍDRICOS.

É lamentável constatar que tal proposta, com 99% de adesão, vem de pessoas de nível universitário, com ótima situação financeira, todas com excelente qualidade de vida, com acesso às informações e conhecedoras da Lei, muitas desempenhando cargos públicos dirigentes, algumas com atividades empresariais, de veículos de comunicação e "formadores de opinião". Lamentável, também, ter ouvido de algumas dessas pessoas, que existem muitos prédios em S.Maria fazendo poços clandestinos. Os órgãos fiscalizadores precisam ver isso. Água é fundamental à vida e ninguém deve se apropriar indevidamente do que é de todos.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Aniversário de minha mãe

Dia 13 de dezembro de 1925, nascia Maria Lúcia Bonelli Lovatto, no interior de Cachoeira do Sul (Estiva). Hoje completa 86 anos.
Filha de descendentes diretos de imigrantes italianos. Sua mãe, Vitória Bonelli nasceu em um dos navios que trouxeram imigrantes da Itália, em plena travessia do Oceano Atlântico.
Seus pais, sem terras próprias, chegaram a tornar-se empresários de arroz, plantando em terras arrendadas. Foram bem sucedidos, plantando nas margens do rio Jacuí. Viveram períodos de fartura. Produziam com o que havia de mais moderno, na época. Chegaram a ter dezenas de empregados.

De acordo com os relatos de minha mãe, meu avô Joanin Lovatto mandou vir um bom professor de Santa Maria para dar aulas às filhas ( o filho estudava em S.Maria) e aos empregados. Foi assim que elas e os empregados se alfabetizaram a aprenderam conteúdos históricos e geográficos, bem como alguns cálculos matemáticos, aplicáveis às necessidades da vida.

Com a crise de 1929, que afetou o Brasil durante décadas, a empresa do "nono" quebrou.
Minha mãe, já casada com meu pai Delmiro Copetti, também sem terras ou patrimônio, teve oito filhos e ambos trabalharam muito. Juntaram um razoável patrimônio que também foi dilapidado por outra crise: o galopante procresso inflacionário que durou décadas e que se tornou nosso conhecido, fantasma que continua a nos assustar.

Mas, apesar das dificuldades, criaram os oito filhos e todos estudaram, se formaram e estão bem. Claro, que os mais velhos, trabalhando e estudando e ajudando a sustentar os mais novos.
No entanto, é preciso ressaltar os méritos de nossa mãe, que nos empurrou para a vida, nos ensinou a trabalhar e nos forçou a estudar.

Neste dia, quero homenageá-la, lembrando a força e a potência de vida desta mulher silenciosa, de poucas palavras, de poucos sorrisos, tímida, mas que fez um grande trabalho.
Tinha muita sabedoria.
Criou os filhos numa época difícil e é pertinente lembrar que foi com muito poucos recursos e conforto.
Não havia água encanada (tinha que puxar água de poço), lavar roupa na fonte, porque,obviamente, não havia máquina de lavar roupas, nem geladeira, nem fogão a gás.
Nem era possível sair às compras pois lá, no meio rural, não tinha mercado, mercearia, açougue, padaria. Pão ela os fez a vida toda, em forno de tijolo e barro. A carne era de galinhas, porcos, cabritos, criados na propriedade. Frutas, verduras, legumes., feijão, milho, etc. também eram produzidos nas roças caseiras, fruto do trabalho, principalmente da mãe, com a ajuda dos filhos mais velhos, que iam crescendo e ajudando.
O leite, o queijo também eram produzidos em casa.

As roupas, os acolchoados, ela fazia, todas, inclusive as bombachas do pai.
E é bom lembrar, não havia fraldas descartáveis, e nem posto de saúde, SAMÚ, etc. Ela tinha um livro: O Conselheiro Médico do Lar, que orientava sobre os sintomas das doenças e viroses e tinha os conselhos sobre o que fazer: chás, compressas, pomadas, charopes, hidroterapia.

Nos criamos num lugar denominado São Gabriel, hoje município de Ametista do Sul.
Nosso pai serrou as táboas e fez a nossa casa. Ele montou um engenho de serra e depois serrou a madeira para as casas da maioria dos moradores do lugar, naquela época. Isso, aproximadamente lá pelos anos 1955.
Foi a primeira casa com assoalho.
Lembro-me da admiração de uma visinha quando a mãe mostrou-lhe os talheres inoxidáveis que o pai havia trazido de São Paulo, onde viajava para vender madeira.

Nossa casa era toda de madeira, com áreas de ripinhas, bem pintadinha, bem bonita, com jardim e roseiras. Minha mãe era muito caprichosa. Lembro dos vestidinhos que ela nos fazia, bem bonitos e das camisas e calças de meus irmãos. Sempre bem limpos e bonitos.

Houve um tempo em que não havia escola e a mãe alfabetizou e ensinou os primeiros cálculos para os quatro irmãos mais velhos, inclusive para mim.
Também foi nossa catequista. Ela sempre gostou de ler e tinha uma letra muito bonita.
Também nos ensinou a cozinhar, lavar, passar, cuidar da casa, bordar e até um pouco de costura.

Quando a crise começou a apertar, ela foi a primeira a ir abrindo mão de nossa presença e de nossa ajuda para que ganhássemos o mundo em busca do estudo. Não nos deram tudo não, tivemos de trabalhar muito, mas nos viramos e estudamos.
Obrigada mãe, teus cuidados e tua confiança em nós nos fez crescer.

Como ela está durando tanto?
Bom isso é até cômico: me criei achando que a mãe era bem doente, ela se cuidava muito e quando começou a ser possível, ela buscou médicos e todos os recursos disponíveis para se renovar e "se curar" das hipotéticas doenças. Mora comigo a mais de 20 anos e descobri que ela não tem doença nenhuma e vai longe, ainda lúcida.
Sempre que posso tento conversar com ela e aos poucos ela me conta coisas que desconheço.
É uma matriarca forte e uma vencedora, embora não se dê conta disso.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O PIB mede a produção e circulação de riquezas no Brasil?

Hoje de manhã, fiquei em uma fila esperando abrir um cartório em S.Maria e fiquei escutando as conversas.
Chamou-me a atenção um rapaz conversando com um senhor sobre suas atividades econômicas. Pelo que entendi, ambos moradores do Bairro S.Marta, periferia de S.Maria.

O homem falava dos bem sucedidos negócios que lhe haviam rendido uns bons trocados. Falou de compra e revenda de carros, motos e sucatas. Mas o sujeito é muito versátil em matéria de negócios, pois comentou que vendeu muito bem o estoque de salame que havia produzido em sua própria casa. Comprou porcos e transformou em salame.

Depois me distraí um pouco e perdi o fio da conversa. Quando voltei a prestar atenção ele já falava de peixes, entendia tudo de criação, cuidados, etc. e também com peixes ele fazia negócios. O outro, que o escutava, deu seus palpites, demonstrando, também, muita experiência em bons negócios, todos informais, é claro.

Ambos nem cogitavam falar de emprego, empresa regular, etc.
Comentamos o Irineu e eu: O PIB efetivamente, não mede a riqueza que é produzida e que circula, de fato, por este Brasil afora.
Todo o dinheiro de aposentadorias, bolsa familia e outros recursos de políticas sociais, permite que o povo faça sua própria economia e tem que ser informal sim, pois quem é que pode conseguir dar conta da burocracia para se registrar, requerer o SIMPLES e pagar pouco imposto? Não requerer significa estar completamente inviabilizado.

Qualquer negócio, não enquadrado no SIMPLES e regularizado, vai cair no absurdo de, por exemplo, 9% de alíquota sobre faturamento bruto (não é lucro bruto, do qual são descontadas as despesas), a cada trimestre, fora IR (Imposto de Renda), PIS e COFINS, obrigações trabalhistas, previdenciárias, etc.

Por isso o povo faz tudo informal mesmo, compra vende, fabrica, biscateia e ganha dinheiro, muitissimas vezes mais que qualquer emprego de salário mínimo, com a tal carteira.
O crescimento medido pelo PIB, no Brasil, está em torno de 4%, medido sobre os registros legais. O crescimento informal está em torno de 15%. Eu acredito que isso é o que ameniza a crise.

Se a carga tributária e a burocracia não fossem tão elevadas, e se a avidez fiscal não fosse tanta, muitos poderiam contribuir com a previdência e com um imposto geral, pequeno, que creio, é relevante para que os governos garantam saúde, educação, obras, etc.

É preciso ter arrecadação, mas é preciso ser proporcional ao potencial econômico e distruibuída entre todos. Todos contribuindo, reduz para todos e não cai a arrecadação.

O povo brasileiro se vira e faz acontecer, apesar da crise, apesar dos governos. É muita criatividade! Me divirto ouvindo as conversas dos nossos "Pedros Malasartes" brasileiros, que vão dando um jeito de driblar a pobreza, de viver melhor e de se divertir.