segunda-feira, 12 de abril de 2010

REFLEXÕES

É apocalíptico o que aconteceu no Rio. É inimaginável a dor de quem tem que apontar para uma montanha de lama e lixo e dizer: "ali era a nossa casa, e tinha 15 pessoas de minha familia na casa. Agora estão com 10 metros de terra e lixo SOBRE SEUS CORPOS...Mortos!"
Leva-nos a muitas reflexões e atrevo-me a faze-la sobre um aspecto.
Essa trajédia se presta para fomentar idéias hiegienistas (tivemos muitas na história do Brasil), que pressionam as autoridades para tirarem, de todos os morros, as familias e levarem-nas para as periferias, a horas do centro, utilizando transporte coletivo caro e imprestável.
Já ouvi sugestões sobre isso, nesse sentido.

Por que ninguém fala em tirar os ricos que moram em edifícios e mansões nas encostas?
Será porque há tecnologias, para garantir a segurança de suas construções?
Sei que parece um despropósito falar dessa forma, mas a comoção se presta para idéias hiegienistas: os pobres longe dos locais de linda vista.

O que era a Fátima Bernardes usando a fala de uma menina de 8 anos para emocionar o país?Foi forçado. A tragédia se presta para diversas finalidades, inclusive para fazer uso político.
Em todo caso, é preciso atenção e cuidado com os locais de moradia de nossas populações.Será preciso repensar,COM AS COMUNIDADES, a segurança de suas moradias e investir dinheiro e tecnologia, porque dinheiro tem e tecnologia também.
MUDANDO DE ASSUNTO:
Sobre política: Por que será que o Diário de Santa Maria dedicou uma página inteira, para falar da campanha do Serra e quase nada sobre a campanha dos outros candidatos? Ele que apregoou lisura e imparcialidade em um dos seus editoriais da semana passada?
Por que? Adivinhem!

Por fim, tenho mais uma sobrinha. Nasceu a Cecília, filha de Adriano e Carla, estou feliz. Sinto-me avó dessa menina pois é filhotinha do meu irmão mais novo. Que alegria! Tomara eu pudesse conviver mais com ela, mas sei que isso será difícil. Que ela seja feliz, com muita saúde. Parabéns aos pais e irmãos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

CUIDADO COM AS PULSEIRAS


Se você estiver usando uma pulseira preta, você pode estar querendo dizer, que tem disposição de transar.É um crime? Não, é natural, mas cuidado: isso pode ser suficiente, para que algum machista entenda, que tu não tens o direito de escolher com quem e quando queres transar e pode ser estuprada!

Você também pode ser estuprada, ofendida e desrespeitada se usar decote ou mini-saia. Já vimos isso.
Ou seja: a culpa é sempre da mulher, que tenta, que manifesta ser sensual, ter sexualidade. NÃO PODE!

Ontem o Fantástico noticiou, que as pulseiras coloridas, que as adolescentes estão usando, são um perigo. Cada cor, revelaria o estágio de desejo e de permissibilidade das adolescentes. Relatou que uma adolescente foi estuprada, por quatro rapazes, porque usava uma pulseira, que indicava que ela estaria disposta a transar.

Pronto, os machões entenderam que ela era estuprável!
O programa do fantástico abriu o debate (do jeito deles,) com aquela pesquisa instantânea e fez o questionamento com duas opções: "Você acha que é o poder público, que deve proibir o uso das pulseiras, ou você acha que são os pais, que devem proibi-las?"

Portanto, a pesquisa parte do principio, que o problema são as pulseiras e que é óbvio que elas devem ser proibidas. É uma pesquisa indutiva. Só era questionado, QUEM DEVERIA PROIBIR.
Deduz-se daí, que o problema é o uso das pulseiras e portanto, a culpa do estupro é de quem usa as pulseiras.

Não fizeram nenhuma observação, quanto à conduta abusiva dos estupradores. Atrás disso está a concepção da culpabilidade da mulher ou, no caso, das meninas. CULPADAS!!! POR QUE USAM PULSEIRAS TENTADORAS???? Bem feito! Foi isso que pareceu ao ver a matéria, como sempre superficial e desqualificada.

Há sempre uma desculpa, para não se fazer um debate profundo, sobre a questão da violência, contra as mulheres e as meninas, sobre a cultura de posse e de dominação.
Essa cultura está em toda a parte.Hoje mesmo ouvi uma música (dentro do ônibus), que falava assim: "quero te possuir", quero te possuir"...O cotidiano está cheio de exemplos desse tipo de formação cultural: de apropriação, de uso e abuso sobre o corpo feminino.

domingo, 4 de abril de 2010

Mais uma escola Tiradentes


Lá, onde a truculência de latifundiários comandam o modo de vida, lá onde a Fazenda Sottal, improdutiva, foi palco de luta pela Reforma Agrária, foi aprovada pelo Conselho Estadual de Educação, uma escola estadual, comandada pela Brigada Militar. A terceira do Estado. Lá, onde o Estado havia fechado escolas estaduais, por falta de alunos, agora encontra alunos para treinar para a disciplina, a hierarquia, a ordem unida. Para isso tem alunos?

É lamentável que esse tipo de educação prolifere.
Não tenho medo de afirmar que a subordinação, a hierarquia, a disciplina, o poder institucional sobre o Ser Humano, nos legou esse mundo violento, desigual, em que a guerra é constante, em diversos lugares do mundo, senão em todos, nas suas diferentes configurações. São esses (des) valores que garantem a acumulação, a ilimitada propriedade privada, a exploração e o lucro desmedido, causas de fome, de doença e de morte.

A comunidade de São Gabriel vibra, por ter uma reivindicação atendida. Quem serão os alunos dessa escola? Quem reivindicou esse tipo de educação?
É lamentável, pois justo quando se faz mais necessário, inaurugar novos modos de vida, criam-se escolas que reafirmam, tudo aquilo que foi fundamento da sociedade em crise, que somos testemunhas.

Precisamos de uma formação que contribua para a liberdade, o respeito à diversidade, a democracia participativa, o diálogo horizontal, a criatividade, a valorização da potência humana, das singularidades e das subjetividades diversas. Isso, certamente, não se constrói com escolas militares.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Explicando

No texto anterior falei que fomos a Silveira Martins. E daí? Daí que morávamos lá antes de vir morar em Santa Maria. Deixamos por lá, na casa de um amigo, um montão de coisas que não cabiam no apartamento onde estamos morando. Coisas que faziam muita falta, na casa antiga dos irmãos Dalmaso (familia do meu marido). Fomos pegá-las. Que bom que conseguimos levar para o Rincão de Lurdes, aquele lugar mágico, da infância do Irineu!
O resto já contei.

Ah, quando falo da vida do Sr. Ibanês, não pretendo que alguém entenda que é fácil viver do trabalho da roça e criação de animais. É dureza. Já experimentamos isso. O que nos chamou a atenção foi a sabedoria do Sr. Ibanês. Ah, ele deixou claro que usa o que pode de tecnologia. Quando mostrei a ele a máquina de fazer salame, que levamos, ele disse: É bom para as pessoas verem como era que se fazia salame, agora já não se usa mais esse tipo de máquina. A minha é elétrica e faz o trabalho com rapidez e muito mais higiene.

Pensei: "ah bom, assim ficou mais fácil!
É isso, continuar curtindo a natureza, retirar renda necessária ao bem viver, mas sem sofrer, gostando dos fazeres. Como ele me disse: Trabalho bastante, mas páro para ajudar um vizinho ou para passear, eu não tenho patrão, eu me comando!

Rincão de Lurdes


A familia do Irineu era muito grande: 10 irmãos. A casa onde se criaram ainda está lá no Rincão de Lurdes, em Caçapava do Sul. É lá que irmãos e irmâs,(que ainda estão vivos), cunhados e cunhadas, sobrinhada e os filhos dos sobrinhos (as) se reúnem, pelo menos, uma vez por ano.
Ontem os três irmãos (Irineu, Deoclécio e Remi) e eu fomos a Silveira Martins, pegamos geladeira, mesas, bancos, balcão, armário de cozinha, máquina de cortar grama e levamos ao Rincão, arrumamos tudo por lá. Ficou muito bom.

No caminho, o Remi telefonou para um vizinho da antiga casa e pediu, que preparasse algo para comermos, quando chegássemos, em torno do meio dia.
Chegamos um pouco passado das 12 horas e encontramos o vizinho, sorridente, com a comida pronta: mandioca, milho verde, arroz e carne de porco. Uma delícia!
Eta vizinho prestativo! Tomamos vinho de colônia com o almoço, na companhia do vizinho.
Nos encantamos com a forma com que ele concebe a vida. Vive da venda dos produtos da roça e da criação de animais: galinhas, pato, ovelha, porco, ovos, carne de gado, etc.É um minifundiário. E não cobra tudo o que faz não! Não cobrou nada pelo almoço que nos ofereceu. Largou todo o serviço dele e foi lá, na antiga casa dos
meus parentes, fazer o almoço.

Um dia desses foi a Caçapava (com a caminhonete dele), pegou as sobrinhas do Irineu, que são portadoras de deficiência, levou lá fora para passear e depois colheu milho, mandioca e outras coisitas e deu pra elas.
Diz ele:" me lembro sempre delas e penso: podiam ser minhas filhas, era amigo do pai delas" (que já faleceu: o tio Valdir).
Ele e o meu cunhado Remi, vivem trocando serviços. É ele que corta a grama da antiga morada.

Fizemos as arrumações, colhemos mandioca e milho, curtimos as sombras das árvores, próximas à casa, o silêncio e o barulho das águas do rio Picó, ( que fica próximo à morada), ouvimos os passarinhos e voltamos.
Hoje de manhã, haja descascar mandioca e milho! Que canseira boa, a que levamos ontem!

Fez-me bem, ouvir o seu Ibanês falar do seu modo de vida: simples, solidário, gosta da vida que leva, sábio em relação às suas plantações e suas criações. Anda às voltas com o problema dos carrapatos no gado.Sente os problemas ambientais, está bem informado.
Adorou a máquina de cortar grama, à gazolina. Examinou e mostrou-se logo entendido de motores, inclusive o motor da máquina. Botou gazolina, prestou atenção às instruções do Irineu e fez a máquina funcionar, saiu cortando a grama e se ria, gostando da eficiência e potência da máquina. Pensei: "nossa, quantas coisas esse homem precisa entender, para fazer tudo o que ele faz".

Fizemos muitos planos, de ir mais ao Rincão de Lurdes e aprender mais com o seu Ibanês e com o tio Remi, que cuida daquilo lá. Mas a gente percebeu, que é preciso reservar um dinheirinho, para repor tantas coisas que estão tão acabadas. Vou cantar os filhos para nos ajudarem. É bom pra todo mundo, ter um lugar assim para ir, pensar, ler, dormir, comer e conversar. Isso é vida boa, isso é vida rica.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Ando cansada

Ando cansada da politicagem. Fui vereadora uma vez, candidata a prefeita outra vez, candidata a deputada estadual duas vezes. Na última vez, fiz quase 15 mil votos. Sem dinheiro,sem militantes pagos, sem mídia. A garra da juventude, das mulheres e do trabalho junto às lutas sociais,junto com compromissos claros, definidos na base, é que renderam tantos votos. Não me elegi, porque a lógica da nossa democracia requer dinheiro e para isso, ou a gente se individa, ou aceita patrocínios, que comprometem a liberdade do eleito realizar aquilo que ele acredita. Deixei de ser candidata.Talvez tenha sido uma atitude equivocada, talvez moralista, pois não quis abdicar de determinados princípios.

Não me iludo que na frágil democracia brasileira, o processo eleitoral tornou-se uma guerra suja, corrompedora, quase sem exceção.
É o que estamos vendo com a imprensa golpista e com os Institutos de Pesquisa (desta vez o Data Folha, que não tenho dúvida, fraudou a última pesquisa,com o surprendente crescimento repentino do Serra).

Estou cansada de mediocridade nos noticiários, que só divulgam catástrofes, que são sensacionalistas, tendenciosos, superficiais, denuncistas, que promovem atitudes pró-linchamento, como ocorreu com o julgamento do casal Nardoni.Esse sensacionalismo que incita o desejo de vingar com as próprias mãos, instigam apelos pela pena de morte e outras barbaridades. É preciso fazer justiça, mas dentro dos mecanismos institucionais. Agressões a crianças, infelizmente, acontecem todos os dias, e com mortes. Por que esse caso foi escolhido para provocar comoção nacional?

Outra coisa que cansa é o denuncismo, só coisas ruins, só erros e suspeitas sobre os governos, autoridades, profissionais, instituições. Isso gera sentimento de derrota absoluta da sociedade humana. Temos inúmeras ações culturais e humanitárias, ações de governos que são acertadas, criativas e resultado da mobilização das lutas sociais.
Claro que muitas coisas andam mal, mas tem muitos acertos nas políticas públicas. Por exemplo, nos Territórios da Cidadania: regiões mais pobres do país, em que o Indice de Desnvolvimento Humano (IDH) é baixo,recebeu investimento de 37 bilhões para 135 ações de desenvolvimento regional e de garantias de direitos sociais, objetivando melhorar a vida das pessoas, na agricultura familiar, nos assentamentos, indígenas, quilombolas, pescadores, etc. Sobre isso, Toda a imprensa se cala.

Por fim estou cansada dos domingos nos meios de comunicação. Se a gente precisa ficar em casa, mesmo tendo televisão a cabo e outras tecnologias, não temos opção.São muuuuito ruins as programações de todos os canais aos domingos. De que adianta tecnologias, se nos oferecem tanto lixo, acompanhado de tantas propagandas? Me enchi! Ainda bem que a gente pode fazer outras coisas, como cantar. Foi o que fizemos no domingo que passou. Como eu estava feliz, com minhas filhas e seus companheiros, cantando, conversando e rindo. Disso não canso nunca..Não canso de fazer comida boa, de costurar roupas para minhas filhas, de receber visitas, de visitar amigos, de ver bons filmes.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O pensamento dói


Pensar, estudar, tentar conhecer e entender, dói muito. Dói a cabeça, as costas, o pescoço...são nódulos de tensões,provocados pelas crises de compreensão, de dúvidas, de caos, nas nossas supostas certezas.

Hoje sinto o meu corpo um monumento de dor.
E quanto mais eu penso, mais me dói a cabeça. Passei a noite pensando e dormia e sonhava com os mesmos pensamentos: a complexidade e a incompreensão da doença e da dor humana.

Lembrei-me do que Franco Berardi fala da empatia, de nosso corpo erótico, capaz de sentir, de colocar-se no lugar do outro e sentir alegria, dor e prazer porque o outro sente alegria, dor e prazer. Ele fala que corremos o risco de nos deserotizar e, portanto, de perder a capacidade de sentir o que o outro sente e então, de sentir compaixão, de agir solidariamente.

A enfermidade de minha cunhada, que tem a minha idade, tem me feito sofrer, pensando nos planos que ela tinha, nas alegrias que ela ainda queria viver, na sua luta para se manter viva. E me faz crescer um desejo enorme de lhe dar parte de minha própria vitalidade.
A dor, que compartilho com ela, não é só uma dor espiritual, ela é sentida no meu corpo.

Somos seres sensíveis, capazes de empatia. Os nossos neurônios espelhos nos permitem entender e sentir, mesmo sem ter vivido diretamente algumas experiências.
Não sei se só os humanos são assim, mas isso é fundamental para viver intensamente e solidariamente.
Dor é vida, pensar, amar, estudar, conhecer, descobrir, viver dói, dói muito.

Espero, desejo e tenho fé que a medicina racional e pragmática, incapaz de curar determinadas enfermidades, possa compreender melhor o ser humano em toda sua complexidade e seu potencial. Tenho fé que minha cunhada resista e responda a outras terapias que lhe deem capacidade de cura.