A Constituição de 1988 foi um dos maiores acontecimentos da história do Brasil. Por que?
PRIMEIRO, porque foi precedida por um amplo processo de protagonismo e participação, que começou com a eleição da Assembléia Constituinte e com as mobilizações, de quase todos os segmentos da sociedade, para produzir sugestões de políticas públicas para os constituintes e não só produzir, mas mobilizar e fazer pressão nos constituintes.
SEGUNDO, porque o povo brasileiro saía de mais de duas décadas de ditadura. Havia, de um lado, setores ávidos por participação e por outro, ainda receio e aversão a qualquer processo democrático.
Claro que houve muita mobilização corporativista, como por exemplo, dos advogados, que tiveram suas prerrogativas muito ampliadas na Constituição de 88.
Antes da atual constituição, não havia Ministério Público, nem SUS (Sistema Único de Saúde), nem a obrigatoriedade de um percentual orçamentário para saúde e para educação, nas três esferas da administração pública, como conhecemos hoje. Além disso, o provimento de cargos públicos não era realizado mediante concurso público, mas por indicação de quem estava nos governos.
A obrigatoriedade do concurso público veio atender a um preceito constitucional da nova constituição. O Art. 37 determina que a Administração Pública, nas três esferas, deve se guiar pelos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
A Const. 88 também, determinou a função social da terra e a Reforma Agrária, como necessidade social. Antes da nova constituição não havia aposentadoria para as trabalhadoras rurais e para os trabalhadores rurais, a aposentadoria era de meio salário mínimo.
Fizemos grandes mobilizações, reuniões, assembléias, vigílias em Brasília. Eu e o Irineu participamos ativamente em três frentes: luta por conquistas referentes aos trabalhadores rurais, da agricultura familiar: aposentadoria integral de um salário mínimo para homens e mulheres, reforma agrária, seguro agrícola, crédito subsidiado.
Na luta pela saúde pública, gratuita, integral, de relevância social, com obrigatoriedade de valor mínimo orçado, nas três esferas. Na educação: pelo reconhecimento das carreiras, com planos de carreira, básico profissional, concursos públicos, recursos orçamentários, etc. Difícil relatar todas as dimensões das conquistas: foram muitas! E nós sentimos o prazer de ver nossas lutas e reivindicações contempladas na Nova Constituição. Conquistas que para as novas gerações, hoje, parecem tão naturais, como se sempre tivesse sido assim.
Na Lei obtivemos uma constituição, que muitos cientistas políticos e sociais, chegaram a dizer que era quase socialista, claro que preservando a propriedade privada, como intocável. Mas foi chamada de Constituição Cidadã. No entanto, era preciso atuar nas Constituições Estaduais e nas Leis Orgânicas Municipais, para regulamentação da Constituição Federal, de forma que, efetivamente, as conquistas se efetivassem.
Por isso nos jogamos na luta institucional, no processo eleitoral, disputando espaço com as elites.
Dizíamos que precisávamos ter um pé no Parlamento e outro no Movimento.
Creio que acabamos por enfraquecer o Movimento e apostar mais na luta institucional. Nesse processo de ocupar o Estado ( que é uma máquina que possui mecanismos corrompedores), muitos enlamearam as mãos. É um risco constante.
Continua sendo importante a luta pela implementação dos preceitos da constituição de 88 e mais do que nunca, continua sendo importante a luta de base. No entanto, com as alterações no processo produtivo, as lutas de base mudaram seu perfil. O Movimento Popular está em outros espaços, que ainda não conseguimos identificar com clareza e entender. Precisamos avançar e a luta continua: contra a corrupção, pela democratização do Estado, das riquezas, da comunicação. Luta por acesso e uso dos meios de produção, que se constituem, principalmente, no trabalho vivo: no conhecimento, na comunicação, na corporalidade: a VIDA, COMO UM TODO, FOI POSTA A PRODUZIR.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
"MULHER PODE"

Me comoveu a imagem de uma jovem mulher negra, sacudindo a bandeira de Dilma, na festa da eleição em Brasilia, respondendo a um repórter:"estou feliz, porque acredito que se a mulher pode fazer tripla jornada de trabalho, trabalhar fora de casa e ainda cozinhar, lavar, passar, administrar a casa, criar e cuidar dos filhos, dos idosos... pode também cuidar do Brasil" (Mais ou menos isso ela falou). Disse tudo.
O campo popular inovou na eleição de Dilma. Provou que fazer política, na democracia, não significa, sempre, seguir carreira política eleitoral. Dilma disse: "minha trajetória é de servidora pública, servidora do povo". É um caminho que não foi o da disputa, é legítimo e é uma alternativa viável. A eleição de Dilma é, também, a eleição da superação do preconceito. Dilma é muitas de nós. Faz-me sentir eleita junto com ela.
Ela tem a minha idade e a trajetória semelhante a de milhares de pessoas de minha geração.
Quero pedir licença aos meus leitores para contar um pouco dessa trajetória, parte dela.
Dilma e nós (eu e muitos) lutamos contra a ditadura e por transformações sociais, políticas e econômicas deste país. Cada um de um jeito. Ela, corajosamente, na clandestinidade, porque era proibido a manifestação direta. Eu (e muitos) buscamos o caminho da luta dentro das pastorais (estudantil, operária, da terra). A ditadura tolerava a Igreja, porque parte dela apoiou o Golpe Militar, por medo do comunismo, que a guerra fria havia demonizado.
A Igreja Progressista, resistiu a ditadura, abrigou militantes (Frei Beto e Frei Tito foram presos e torturados, junto com outros tantos).
Em Sta. Maria fundamos a Pastoral Universitária ( o MUSM: Movimento Universitário de Santa Maria). A sede era ali na Professor Braga, onde hoje funcionam algumas pastorais e o restaurante Scharong.
Fazíamos acampamentos, acolhida aos bixos da universidade, campanhas do agasalho e reflexões. Para cantar as músicas do Geraldo Vandré e Chico Buarque, nos escondíamos no porão da sede do MUSM.
Claro, todos fomos fichados no DOPS (órgão de espionagem e repressão da ditadura). Convivíamos com os "ratos" que passavam informações ao DOPS: eles tinham tudo documentado a nosso respeito: o que falávamos, nossos planejamentos...tudo. Era triste quando descobríamos que pessoas da nossa mais absoluta confiança, eram delatores! Alguns andam por aí até hoje. Alguns se arrependeram e choraram muito.
Isso teve efeitos na vida de cada um de nós. Eu fui indicada para dar aulas na UFSM, depois de formada (aquela época não havia concurso). Minhas notas em Estatística e Análise de Balanço me credenciavam para isso. A professora que me indicou só me informou depois: "não dá Tereza, tu tá fichada por causa do MUSM".
Depois fiz uma prova de seleção para o Banco do Brasil. Gabaritei. Meu nome não apareceu na lista, fui saber e de novo obtive essa informação: "não pode, tu pertences ao MUSM".
Casamos, fomos morar em Ibirubá, de lá reunimos um grupo (que eram do MUSM): um padre, um casal de engenheiros, duas professoras e nós e fomos morar em comunidade na Vila Jardim. Lá fomos trabalhar em educação popular, seguindo Paulo Freire. Quase dez anos de movimento comunitário e pastoral social. (seguindo a Conferência Episcopal de Puebla, que havia definido como linha pastoral a "opção preferencial pelos pobres").
Fundamos associação, lutamos por água, luz, canalização do esgoto, transporte coletivo, abertura de ruas, creches, alfabetização de adultos...ajudamos fundar os Direitos Humanos, em Porto Alegre. Participamos do Movimento Contra a Carestia (Mov. da Panela Vazia). Fugimos da polícia, claro que fomos fichados novamente.
Iniciava o período de distenção política e começavam os primeiros processos eleitorais. Só tinha Arena (partido da ditadura) e MDB, que era oposição. Em Porto Alegre o prefeito era indicado, era sempre o João Dib. Ah como incomodamos o Dib! Fazíamos teatro popular, seguindo Augusto Boal, para preparar nossas reivindicações. Ensaiávamos o que a gente ia dizer e responder ao prefeito. Armávamos as nossas defesas.
Ainda em Porto Alegre ajudamos na mobilização pela libertação do Lula da prisão e ajudamos a fundar o PT. Participamos da primeira lista de filiações. Enquanto isso íamos criando os filhos. A Lúcia havia nascido em Ibirubá, depois vieram a Silvana e o Pedro, ainda em Porto Alegre.
Tínhamos também nossa luta como educadores: na escola, por eleições diretas, por dinheiro para manter as escolas. Fizemos a primeira grande greve do período da Ditadura Militar. Foi barra, quase passamos fome. Resistimos e obtivemos muitas conquistas e aquelas greves foram potentes instrumentos de luta contra a ditadura.
Quase dez anos depois nos mudamos para o interior de Restinga Seca. Era o início das mobilizações para elaboração da Constituição de 1988. Isso foi outra luta popular fundamental. Fica pra outro dia. Em Restinga fomos presenteados com mais uma filha: a Alice.
Por tudo isso é que me sinto eleita junto com Dilma.
Outro dia vou escrever sobre as contradições da luta institucional e os embates que o movimento popular e sindical vão ter, provavelmente, com Dilma.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
DIVERSOS
I - Hoje é aniversário do Lula. Data importante, comovente. Fico lembrando na mãe dele, lá em Garanhuns: mal sabia que aquele filho que nascia na pobreza e no abandono de todos os governos que o Brasil teve, seria o Presidente da República e faria um governo que, pela primeira vez, lembrava dos milhões de brasileiros, historicamente esquecidos. Lula é muitos. Parabéns Lula! Orgulho-me de ter participado de tua trajetória, da tua eleição.
II - O Jornal Brasil de Fato trás matéria, com todas as informações comprobatórias da presença do FHC e empresários internacionais em Foz do Iguaçú. Tema: eleição do Serra e Programa de Governo de caráter PRIVATIZADOR, sim. Inclusive referindo-se ao apoio de setores da igreja católica e das estratégias de campanha para garantir eleição de Serra. Mas não vão levar, se Deus quiser!
III - Então Serra é do bem? Para os moralistas anti-Lula de plantão, que não se dão conta do que está em jogo nesta eleição: É o candidato com mais processos (17). Entre eles lembram dos sanguessugas das ambulâncias? E agora ficou claro as questões do dossiê da quebra de sigilo dos tucanos (coisa do Serra e do seu PSDB) , do metrô de São Paulo (operação castelo de areia), das fraudes nas licitações...
E o aborto? Parou de falar? Será que é porque não quer que se lembre mais, que sua esposa fez, com seu consentimento? Não que se queira julgá-los, mas por que hipocritamente levantaram essa questão e a usaram eleitoralmente, se tinham o rabo preso? Por tudo isso eu acho que duas coisas são fundamentais:
Reafirmar os programas de governo, com ênfase no social e apurar rigorosamente todos os casos de corrupção e improbidade administrativa.
IV - Serra vai perder, porque quis se disfarçar de esquerda. Quais são as forças que apóiam Serra? é bom lembrar. É o que há de mais perigoso que existe na história deste país. Vou me referir ao Jornal Brasil de Fato que pesquisou o assunto, São eles: Os empresários (empreiteiras) corruptos de São Paulo, A TFP, o CCC (Comando de Caças aos Comunistas), a Opus Dei ( a direita da Igreja, na qual está o bispo de Guarulhos), o DEM que protagonizou a ditadura militar, os grandes escândalos de corrupção recentes, ainda os grandes latifundiários e grupos estrangeiros de olho no Pré-Sal. Juntam-se a estes os racistas, escravagistas e fascistas desse país.
V - Dilma foi aperfeiçoando seu programa na medida em que foi ouvindo os artistas, o pessoal ligado à cultura, os jovens, os ativistas sociais, os agricultores...e foi se imbuindo do calor popular. Agora ninguém segura essa Mulher. Dilma é a multidão e hoje é possível cantar:
"Dilma Lá, brilha uma estrela, Dilma Lá"...
II - O Jornal Brasil de Fato trás matéria, com todas as informações comprobatórias da presença do FHC e empresários internacionais em Foz do Iguaçú. Tema: eleição do Serra e Programa de Governo de caráter PRIVATIZADOR, sim. Inclusive referindo-se ao apoio de setores da igreja católica e das estratégias de campanha para garantir eleição de Serra. Mas não vão levar, se Deus quiser!
III - Então Serra é do bem? Para os moralistas anti-Lula de plantão, que não se dão conta do que está em jogo nesta eleição: É o candidato com mais processos (17). Entre eles lembram dos sanguessugas das ambulâncias? E agora ficou claro as questões do dossiê da quebra de sigilo dos tucanos (coisa do Serra e do seu PSDB) , do metrô de São Paulo (operação castelo de areia), das fraudes nas licitações...
E o aborto? Parou de falar? Será que é porque não quer que se lembre mais, que sua esposa fez, com seu consentimento? Não que se queira julgá-los, mas por que hipocritamente levantaram essa questão e a usaram eleitoralmente, se tinham o rabo preso? Por tudo isso eu acho que duas coisas são fundamentais:
Reafirmar os programas de governo, com ênfase no social e apurar rigorosamente todos os casos de corrupção e improbidade administrativa.
IV - Serra vai perder, porque quis se disfarçar de esquerda. Quais são as forças que apóiam Serra? é bom lembrar. É o que há de mais perigoso que existe na história deste país. Vou me referir ao Jornal Brasil de Fato que pesquisou o assunto, São eles: Os empresários (empreiteiras) corruptos de São Paulo, A TFP, o CCC (Comando de Caças aos Comunistas), a Opus Dei ( a direita da Igreja, na qual está o bispo de Guarulhos), o DEM que protagonizou a ditadura militar, os grandes escândalos de corrupção recentes, ainda os grandes latifundiários e grupos estrangeiros de olho no Pré-Sal. Juntam-se a estes os racistas, escravagistas e fascistas desse país.
V - Dilma foi aperfeiçoando seu programa na medida em que foi ouvindo os artistas, o pessoal ligado à cultura, os jovens, os ativistas sociais, os agricultores...e foi se imbuindo do calor popular. Agora ninguém segura essa Mulher. Dilma é a multidão e hoje é possível cantar:
"Dilma Lá, brilha uma estrela, Dilma Lá"...
sábado, 23 de outubro de 2010
PEDRO
Ontem nosso filho Pedro completou 30 anos. Preparamos com carinho uma janta especial, muito íntima, praticamente só com o pequeno núcleo familiar,mais o mano de coração (primo) Luciano, tia Mirian e Laura, a amada. Estávamos muito alegres. Os quatro já maduros, um tirando com a cara do outro e nós dois, corujas observando, satisfeitos de ver em cada um, um pouco de nossa própria história, mas principalmente, o quanto cada um fez e faz a sua trajetória, com autonomia e singularidade.
Como aprendemos com eles! Hoje eles têm muito a nos ensinar.
O Pedro continua estudante, terminando a residência, fazendo cirurgias, relatando para nós os desafios. Às vezes conversamos e fazemos as reflexões sobre as nossas relações com o ser humano, ele como médico, nós como educadores. Constatamos que, em ambos os casos, qualquer processo de homogeneidade revela-se ineficiente. A singularidade do ser humano requer observação, interesse, respeito, empatia.
Nos satisfaz muito constatar que o Pedro vem demonstrando, e eu diria até cultivando, a sensibilidade e a empatia com o ser humano. Ouvir, tocar, prestar atenção e até intuir, para poder acertar no diagnóstico e no tratamento. Cuidar, aliviar a dor e curar, se possível! Esse é o cotidiano do Pedro.
Esse filho, desde muito pequeno, gostava de arriscar palpites, ousava opinar e muitas vezes acertava. Demonstrou, desde cedo, um grau de conhecimento sobre as pessoas, que nos deixava muito admirados. Creio que o Pedro um dia vai ser, também, um bom educador.
Filho querido, essa sensibilidade humana faz toda a diferença, para tornar a vida e o mundo mais humanizado. Parabéns e que sejas muito feliz!
Como aprendemos com eles! Hoje eles têm muito a nos ensinar.
O Pedro continua estudante, terminando a residência, fazendo cirurgias, relatando para nós os desafios. Às vezes conversamos e fazemos as reflexões sobre as nossas relações com o ser humano, ele como médico, nós como educadores. Constatamos que, em ambos os casos, qualquer processo de homogeneidade revela-se ineficiente. A singularidade do ser humano requer observação, interesse, respeito, empatia.
Nos satisfaz muito constatar que o Pedro vem demonstrando, e eu diria até cultivando, a sensibilidade e a empatia com o ser humano. Ouvir, tocar, prestar atenção e até intuir, para poder acertar no diagnóstico e no tratamento. Cuidar, aliviar a dor e curar, se possível! Esse é o cotidiano do Pedro.
Esse filho, desde muito pequeno, gostava de arriscar palpites, ousava opinar e muitas vezes acertava. Demonstrou, desde cedo, um grau de conhecimento sobre as pessoas, que nos deixava muito admirados. Creio que o Pedro um dia vai ser, também, um bom educador.
Filho querido, essa sensibilidade humana faz toda a diferença, para tornar a vida e o mundo mais humanizado. Parabéns e que sejas muito feliz!
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
CECILIA
Para matar a saudade de minha sobrinha Cecília, uma fofa risonha de seis meses, só com a poesia do Chico B. mesmo:
Me escutes, Cecília?
Mas eu te chamava em silêncio
Na tua presença
Palavras são brutas
Pode ser que, entreabertos
Meus lábios de leve
Tremessem por ti
Mas nem as sutis melodias
Merecem, Cecília, teu nome
Espalhar por aí.
Como tantos poetas
Tantos cantores
Tantas Cecílias
Com mil refletores
Eu, que não digo
Mas ardo de desejo
Te olho
Te guardo
Te sigo
Te vejo dormir
Sei que não é para criança, mas é poesia, bela, para nos suavisar, nos encantar. A Cecília é pura poesia.
Me escutes, Cecília?
Mas eu te chamava em silêncio
Na tua presença
Palavras são brutas
Pode ser que, entreabertos
Meus lábios de leve
Tremessem por ti
Mas nem as sutis melodias
Merecem, Cecília, teu nome
Espalhar por aí.
Como tantos poetas
Tantos cantores
Tantas Cecílias
Com mil refletores
Eu, que não digo
Mas ardo de desejo
Te olho
Te guardo
Te sigo
Te vejo dormir
Sei que não é para criança, mas é poesia, bela, para nos suavisar, nos encantar. A Cecília é pura poesia.
SOFRIMENTO
Fico me perguntando: por que sofro tanto no atual processo eleitoral?
Sob o aspecto da vida particular das pessoas, parece que nada vai se alterar. Não se perde e não se ganha nada. Para mim, não há preocupações com vantagens ou desvantagens pessoais.
No entanto, sei que esse processo faz parte de minha história, da história de minha geração. Não tem como não sentir responsabilidade e apreensão com o que possa acontecer, em decorrência da escolha equivocada para Presidente.
Minha geração viveu uma dramática história, que, em alguns aspectos, reaparece no presente processo eleitoral.
As novas gerações: jovens e adolescentes não viveram, (porque eram crianças ou nem haviam nascido) os enfrentamentos ( e as utopias) que minha geração viveu.
Sou da geração que viu e viveu a extrema pobreza, a dependência, o colonialismo, o preconceito, o machismo, a ditadura militar, a repressão, o medo. Inspirados na utopia socialista ou na teologia da Libertação, nossa geração foi à luta: nas ruas, no enfrentamento à repressão, nas mobilizações gigantescas; viu a construção das Estatais, que criaram a infraestrutura para o país crescer e viu e sentiu o custo pago por toda a sociedade, a imensa dívida externa, a dependência ao FMI.
Veio o Neoliberalismo e vimos e protestamos contra a venda, a preços vis, do Patrimonio Nacional ( a Vale do Rio Doce, a Telefonia, as grandes ciderúrgicas, as distribuidoras de energia) etc.
Diga-se, de passagem, que os investimentos básicos de telefonia foi o Estado que fez e até hoje é o Estado que faz e onde ele não fez ou não faz, não tem telefone.
O neoliberalismo transferiu muita riqueza do povo ao Grande capital, a pobreza cresceu, o desemprego chegou a patamares dramáticos, a desigualdade aumentou. O neoliberalismo expropriou, axauriu, saqueou, traficou, corrompeu, favelizou, desmatou... A crise está aí, no mundo (vejam a crise nos E. Unidos e na Europa, com grandes convulsões sociais).
A América Latina tenta se levantar, e está conseguindo, soberanamente.
O governo Lula não foi o franciscano governo dos nossos sonhos socialistas. Foi o governo possível, de opção pelo social, nas brechas do capitalismo. Compondo com a diversidade da política e com seus grandes e pequenos vícios e desvios, infelizmente. Mas avançamos, reduzimos a fome, democratizamos a cultura, as instituições, o acesso à educação. Estamos crescento a 7%, o que para nossos dias é fantástico. Ainda é pouco, precisamos avançar, superar problemas, melhorar o controle sobre o Estado.
Não podemos recuar. E conhecemos quem foram as forças protagonistas de cada lado. É isso que está em jogo. Uma opção pelo lado errado, significa dependência, repressão à luta social, sofrimento e fome.
Não mudei de lado, como o Helio Bicudo e muitos outros mais chegados a minha vida. Ele, Bicudo, que defendia os presos pela ditadura, os torturados e perseguidos, agora apóia o candidato que trata os movimentos sociais a cassetete.
Não basta não privatrizar, pois os recursos, mesmo das estatais, precisam ser canalizados para o social. Governos pressionados pela luta social (como Lula e Dilma), pela primeira vez na história, começam a destinar, democraticamente, para o social ( não só aos ricos, aos grandes empresários), parcela significativa da riqueza nacional. Isso incomoda a elite, representada pelo Serra.
Há quem reclame que o pobre não é mais submisso, ficou cheio de argumentos, que os pobres agora têm carro e tumultuam o trânsito, que agora se vê negros e favelados na Universidade... Muitos se incomodam com isso, eu vibro com isso!
Faço críticas ao Lula porque quero mais, quero que distribua mais renda, tribute mais as fortunas e os altos salários. Quero mais em relação à democratização da riqueza, da cultura. Quero mais em relação à educação, à saúde, às questões ambientais. Mas creio que é com Dilma que vamos encontrar mais sensibilidade social e mais permeabilidade à pressão social. Se me enganar, deixo aqui o registro e vou me submeter às crítica e às cobranças e vou cobrar também.
Sob o aspecto da vida particular das pessoas, parece que nada vai se alterar. Não se perde e não se ganha nada. Para mim, não há preocupações com vantagens ou desvantagens pessoais.
No entanto, sei que esse processo faz parte de minha história, da história de minha geração. Não tem como não sentir responsabilidade e apreensão com o que possa acontecer, em decorrência da escolha equivocada para Presidente.
Minha geração viveu uma dramática história, que, em alguns aspectos, reaparece no presente processo eleitoral.
As novas gerações: jovens e adolescentes não viveram, (porque eram crianças ou nem haviam nascido) os enfrentamentos ( e as utopias) que minha geração viveu.
Sou da geração que viu e viveu a extrema pobreza, a dependência, o colonialismo, o preconceito, o machismo, a ditadura militar, a repressão, o medo. Inspirados na utopia socialista ou na teologia da Libertação, nossa geração foi à luta: nas ruas, no enfrentamento à repressão, nas mobilizações gigantescas; viu a construção das Estatais, que criaram a infraestrutura para o país crescer e viu e sentiu o custo pago por toda a sociedade, a imensa dívida externa, a dependência ao FMI.
Veio o Neoliberalismo e vimos e protestamos contra a venda, a preços vis, do Patrimonio Nacional ( a Vale do Rio Doce, a Telefonia, as grandes ciderúrgicas, as distribuidoras de energia) etc.
Diga-se, de passagem, que os investimentos básicos de telefonia foi o Estado que fez e até hoje é o Estado que faz e onde ele não fez ou não faz, não tem telefone.
O neoliberalismo transferiu muita riqueza do povo ao Grande capital, a pobreza cresceu, o desemprego chegou a patamares dramáticos, a desigualdade aumentou. O neoliberalismo expropriou, axauriu, saqueou, traficou, corrompeu, favelizou, desmatou... A crise está aí, no mundo (vejam a crise nos E. Unidos e na Europa, com grandes convulsões sociais).
A América Latina tenta se levantar, e está conseguindo, soberanamente.
O governo Lula não foi o franciscano governo dos nossos sonhos socialistas. Foi o governo possível, de opção pelo social, nas brechas do capitalismo. Compondo com a diversidade da política e com seus grandes e pequenos vícios e desvios, infelizmente. Mas avançamos, reduzimos a fome, democratizamos a cultura, as instituições, o acesso à educação. Estamos crescento a 7%, o que para nossos dias é fantástico. Ainda é pouco, precisamos avançar, superar problemas, melhorar o controle sobre o Estado.
Não podemos recuar. E conhecemos quem foram as forças protagonistas de cada lado. É isso que está em jogo. Uma opção pelo lado errado, significa dependência, repressão à luta social, sofrimento e fome.
Não mudei de lado, como o Helio Bicudo e muitos outros mais chegados a minha vida. Ele, Bicudo, que defendia os presos pela ditadura, os torturados e perseguidos, agora apóia o candidato que trata os movimentos sociais a cassetete.
Não basta não privatrizar, pois os recursos, mesmo das estatais, precisam ser canalizados para o social. Governos pressionados pela luta social (como Lula e Dilma), pela primeira vez na história, começam a destinar, democraticamente, para o social ( não só aos ricos, aos grandes empresários), parcela significativa da riqueza nacional. Isso incomoda a elite, representada pelo Serra.
Há quem reclame que o pobre não é mais submisso, ficou cheio de argumentos, que os pobres agora têm carro e tumultuam o trânsito, que agora se vê negros e favelados na Universidade... Muitos se incomodam com isso, eu vibro com isso!
Faço críticas ao Lula porque quero mais, quero que distribua mais renda, tribute mais as fortunas e os altos salários. Quero mais em relação à democratização da riqueza, da cultura. Quero mais em relação à educação, à saúde, às questões ambientais. Mas creio que é com Dilma que vamos encontrar mais sensibilidade social e mais permeabilidade à pressão social. Se me enganar, deixo aqui o registro e vou me submeter às crítica e às cobranças e vou cobrar também.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
ATRASO E ÓDIO SÃO AS ARMAS DE CAMPANHA DAS ELITES

ALVORADA TRISTE
Sete horas da manhã, liguei a televisão para ver se tudo corria bem com o resgate dos mineiros do Chile. Dei de cara com um pastor engravatado, vociferando sobre os "perigos de eleger alguém do mal, que vai trazer a morte e a convulsão social" e deixava claro que isso se referia à candidatura da Dilma (sem mencionar o nome da candidata). Um discurso ameaçador e fundamentalista. Dei-me conta do grau de atraso e retrocesso que isso significa.
O PODER E AS ELITES BRASILEIRAS
Após séculos de comando sobre o Brasil: sua gente e suas riquezas, as elites brasileiras (associadas às elites internacionais), estão tendo que enfrentar, democraticamente, o processo eleitoral. Não admitem serem governadas por "gente sem estirpe" e não admitem repartir nem as migalhas das riquezas brasileiras. Golpistas, racistas e escravagistas, fazem de tudo para excluir os candidatos que estão historicamente ligados às multidões da base da pirâmide social, que têm os rostos e os corpos marcados pela negritude, pelos traços indígenas, mestiços, caboclos, operários, desgastados e surrados pelo trabalho duro, pelo desemprego (sem terra, sem teto, sem saúde, sem escola...).
As tentativas sempre tiveram caráter racista, preconceituoso, e agora apelam para um perigoso moralismo religioso/fundamentalista. Inauguram um tipo de pregação que é de um atraso medieval, incitando o ódio e este recai, principalmente, sobre as mulheres pobres e a candidata que as representa: DILMA, que manifesta opção pelos pobres.
Da direita a gente não se admira, já fizeram toda sorte de táticas sórdidas. O triste é que algumas lideranças e intelectuais de esquerda, não se apercebam do que está acontecendo e ficam defendendo o voto em branco.
O TEMA DO ABORTO
Neste momento é o aborto a bandeira da elite (que pratica o aborto em clínicas de luxo)
Não creio que alguma mulher queira realizar aborto. É uma agressão ao corpo e à vida e não me acho no direito de julgar ninguém, sobre as circunstâncias que levam uma pessoa a buscar tal alternativa. (nem Jesus julgou).
Durante décadas participei das lutas das mulheres, me deparei e testemunhei situações de desamparo, de violência machista contra mulheres (de todas as idades e condições sociais), que levaram muitas ao desespero.
Criminalizar o aborto significa condenar à morte o feto e a mãe. É isso mesmo. Por que? Porque a criminalização impede que a mulher possa ser atendida do ponto de vista psicológico, médico, jurídico e social.
Ela sabe que não vai encontrar amparo e então submete seu corpo às agressões e aos riscos que a livram da gravidez indesejada, a gravidez da vergonha, do silêncio, do mêdo, do impasse para a sua vida. Ela sabe que em lugar do amparo ela vai enfrentar a polícia, o processo.
As Igrejas, do ponto de vista da fé, não deveriam exigir do Estado, a punição mas a contribuição deste, para amparar a mulher. Que ela pudesse encontrar na sociedade, nas Igrejas e no Estado ( que não é Deus e não é o Papa):
1º) Amparo psicológico, jurídico, atendimento médico, acompanhamento social, acolhimento.
2º) Na gravidez e depois dela, ajuda econômica (renda e creche) para criar seu filho.
Aí, talvez, ela não precisasse recorrer ao aborto.
Considerar pecado é do âmbito da fé e não do Estado. A criminalização não tem evitado a prática do aborto e só tem levado à morte milhares de mulheres e deixado milhares de crianças sem mãe. A descriminalização pode evitar milhares de abortos e salvar a vida de milhares de mulheres.
O QUE ESTÁ POR TRÁS DESSA CAMPANHA?
Sem dúvida, é a culpabilização da mulher, a sua condenação à morte, ao abandono, a repressão, castigo pela sua sexualidade, a condenação ao afeto e ao prazer.
E nessa discussão, que lugar tem a figura do "macho"? Falo inclusive dos machos das Igrejas.
E então Deus, Jesus, aparecem também com a face de justiceiros, de intolerantes e do medo.
Não é o que eu entendi do Evangelho de Jesus.
Tem também o preconceito sobre o imaginário feminino: ser mulher é ser submissa, recatada, mansa, sujeita ao sacrifício até à morte...Dilma não é isso, eu não sou isso, as mulheres não são isso. Como Dilma, como eu e como milhares, somos mães, ou não, somos amorosas, afetivas, sensíveis...mas somos fortes, briguentas quando necessário, administradoras, executivas, ambientalistas, ativistas sociais, agentes de saúde, educadoras, juristas...plenamente gente.
Eleger Dilma é afirmar a Libertação, a democracia verdadeira, é derrotar o moralismo arcaico, a opressão da falsa fé.
Cristo veio para que tenhamos Vida em Abundância, e neste momento, no processo eleitoral, Dilma se aproxima mais dessa máxima do Evangelho.
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